Metamorfose

19/11/2009 at 15:41 | In Não classificado | 1 Comment

            Ele continuava a jogar basquetebol. Dias sem parar, como o fazia há anos. Os seus movimentos eram rápidos, passava a bola de uma mão para a outra com uma facilidade enorme, parecendo que deslizava. Mas quando encestava é que voava, sim, voava literalmente. Ele transmitia uma sensação de liberdade e alegria para todos que o viam.

            Não fazia mais nada, para além de ir às aulas claro, era a sua única dedicação a tempo inteiro. Admirado por todos, e umas notas razoavelmente boas, tinha tudo para ser feliz. Mas não o era.

            Apesar de aparentar uma personalidade descontraída, isso apenas acontecia enquanto jogava, depois disso, voltava sozinho para casa e ali permanecia, à espera que os pais chegassem. Tinha o seu irmão mais velho, é verdade, porém não lhe servia de grande companhia; digamos que feitios parecidos não se entendem.

            A rotina pode ser algo positivo, mas não quando ela nos atraiçoa e faz desejar trocarmos de vida com outra pessoa qualquer.

            Todos os dias, de manhã, Ele cruzava-se no caminho com vários colegas, e uma rapariga que virava sempre numa esquina à direita, enquanto Ele seguia em frente. Durante esse caminho, que parecia interminável, os seus passos ecoavam no silêncio, caminhando devagar, preparando-se para outro dia igual: As mesmas pessoas, as mesmas conversas, o mesmo “bom dia” neutro que ninguém lhe apetece dizer, e as mesmas aulas que não levavam a lado nenhum; apenas para marcar presença.

            Ela, naquele caminho em que virava sempre à direita, ia rodeada de amigas. Pessoas simpáticas é certo, mas muito superficiais, sem noção do que realmente queriam fazer da vida, e a ignorância de que uma roupa cara faz uma rapariga ser uma pessoa melhor. Ela apenas ouvia, sorria, e respondia com frases curtas; porque tinha receio que percebessem que metade das coisas nem ouvira. Ela, coitada, representava constantemente, para mostrar que era “uma delas”.

            Após chegarem à escola, dispersavam-se, reunindo-se nos grupinhos do costume.

            Ela achava-se feliz, mesmo sabendo que tudo era teatro, e as pessoas não lhe ligavam assim tanta importância como queriam fazê-la crer.

            Quando Ela saía das aulas, ia até ao ginásio da escola, para admirar de longe a equipa de basquetebol. Mas logo voltava para casa, pensando que aquele lugar não lhe pertencia.

            Porém, um dia, decidiu ficar a assistir a um treino. Até que a bola rolou junto a si, aos seus pés. Fitou-a com um olhar surpreendido, indecisa se deveria apanhá-la ou não. Um rapaz aproximou-se dela, e quando Ela a ia agarrar, eles tocaram-na ao mesmo tempo.

            Dois mundos cruzaram-se. As borboletas solitárias encontraram-se uma à outra.

- Onde já te vi? – Perguntou Ele.

- Não sei, mas sinto que te vi quase a minha vida toda.

Para além daquilo que se vê

29/10/2009 at 20:14 | In Não classificado | 1 Comment

A noite

As sombras

Lua

Escuridão

Um nevoeiro abençoado

Que não deixa ver nada

Nem sequer a minha mão

Aquele reflexo no céu tem continuado

E parece o mar na terra

Quero afundar-me nele

Encontrar, algo mais para além daquela serra

O Coração

29/10/2009 at 20:10 | In Não classificado | 1 Comment

No meio da complicação

Onde tudo acontece

Às vezes toma conta de mim a frustração

E nem a saudade desaparece

Porque se acumula diariamente

Não consigo explicar, arranjar uma razão

Para aquilo que é assim tão intensamente

Eu não tenho uma opinião

Ele decide por mim

Ai, esse coração!

The rain

25/10/2009 at 18:48 | In Não classificado | 2 Comments

The rain outside is so cold

falling like tears in the eyes

and memories come back

but I’m not crying, though

my soul is with the rain

and body here

life goes away faster

it’s a train

a train that never will come again

 

(Bem pessoal, decidi experimentar escrever poemas, está em inglês. Não sei é se está lá muito bom…)

Igual a mim

23/09/2009 at 21:09 | In Não classificado | 2 Comments

Estava eu a pensar, que talvez ninguém tenha os mesmos interesses que eu, porque sou… Demasiado estranha? Talvez. Quer dizer, nunca posso discutir as minhas ideias, porque simplesmente não compreendem! O que tenho de fazer, ir até ao fundo da minha cabeça e mudar os meus pensamentos? Não consigo, não consigo e nem quero.

            Foi assim, que de repente, atravessei uma barreira. Viajei no tempo, mas até ao momento não me apercebi se era no passado ou futuro. (É engraçado que este tipo de coisas só acontecem quando pensamos verdadeiramente nelas, muito oportuno não?).

            Apenas sei que quando cheguei (Após ultrapassar aquele monte de cores que sempre se vê nas máquinas do tempo, apesar de a máquina não ser visível, mas uma passagem na parede), encontrei um lugar que não conhecia, mas pelo aspecto não era do passado, isso não era, parecia até bastante inovador. Estaria eu no futuro? Boa, iria conhecer esse mundo.

- Olá, queres brincar comigo? – Surgiu uma criança muito sorridente ao meu lado, fazendo aquela pergunta docemente.

- Olha querida, eu agora não posso, está bem? Estou com um problemazito… – Claro, é só um problema de nada chegar a outra dimensão, nada de mais…

- Oh! Estás com um problema?! Eu posso ajudar-te!

- Obrigada, mas penso que não me consegues ajudar – Pus-me a caminhar.

            Enquanto andava senti que estava a ser seguida, virei-me para trás e não vi ninguém. Continuei de novo a andar e… Outra vez aquela sensação, virei-me e olhei para baixo. Ali estava ela, a olhar para mim de olhinhos arregalados.

- Porque me estás a seguir? – Baixei-me e aproximei-me dela.

- Gosto de ti, e quero ajudar-te.

            Tão fofinha…

- Oh miúda, tu nem me conheces. A sério, agradeço a preocupação mas sei cuidar de mim.

- Espera! Dá para ver que não és daqui, pois não? Tens umas roupas esquisitas – Mirou-me de alto a baixo.

- Pois – Ri – Pode-se dizer que não.

- Então vem comigo! Vamos para minha casa.

- Não posso fazer isso.

- Hum… Mas podes vir passear?

- Ok, vamos lá.

            Andámos pela cidade. Enquanto falámos (Mais ela que eu, como hábito das crianças de contar tudo) deu para ver que tínhamos muito em comum, era estranho como uma menina do futuro poderia ser parecida comigo, já que nem do meu século existia alguém assim. Até que…

- Sabes, és muito parecida com a minha mamã!

- Sou…?

- És! Igualzinha.

            Encontrava-me perante a minha filha… Tive noção disso. Afinal, existiria num futuro distante alguém igual a mim, restava-me esperar até essa pessoa maravilhosa entrar na minha vida.

            Até à próxima, foi o que lhe disse quando me fui embora e voltei ao meu presente.

No interior da escuridão

14/06/2009 at 12:24 | In Não classificado | 5 Comments

A única coisa que me lembro é que estava sem sono. Olhei à minha volta e apenas vi o escuro da noite, e as sombras dos objectos que pareciam ganhar vida.

À minha frente, surgiu um pincel enorme. Segurei-o, e ao fazer um movimento no ar, como quem pintava uma tela, começaram a aparecer cores aos poucos que cobriram toda a divisão. Só depois reparei que as diversas cores formavam uma pintura, uma pintura com desenhos diferentes uns dos outros, tais como: Unicórnios, neve, arco-íris, montanhas… Um estranho, mas bonito quadro que se visualizava deitada na cama por onde quer que me virasse.

Quis levantar-me, mas não consegui. Sentia-me presa por algo.

Na pintura, outras imagens apareceram, mas estas eram um pouco diferentes. Umas imagens que me deixaram um pouco constrangida e assustada. Iam passando, rápido sem parar, como um filme, toda a minha vida em slides. Até que chegou à actualidade, ao momento em que parecia mostrar-me o meu futuro. Mas não, isso era saber de mais não vos parece?

Após chegar ao momento actual, tudo ficou escuro outra vez, desaparecendo o pincel.

Acordei. Exacto, todo aquele tempo tinha estado em pleno sono profundo. Talvez tenha tido apenas ilusões causadas pelo cansaço e ter misturado a ficção com a realidade.

E sei porque não vi o futuro. Porque o futuro é como a escuridão, está ali vazio, à espera que o vamos pintar com todas as cores que temos da nossa vida. O eterno mistério de como fazer o que está correcto e o que nos vai acontecer. Tu podes pintar o teu como quiseres.

Mas desde que saibamos que podemos contar com os nossos amigos, tudo vai correr bem.

 

Dedicado às minhas amigas Carolina e Helena,

as pessoas que me conhecem tão bem ou melhor que eu própria.

Casa vazia

22/05/2009 at 15:25 | In Não classificado | 1 Comment

Encontrei uma casa abandonada. Entrei nela e estava vazia, tão vazia como um deserto. A entrada era pequena e dava a sensação que anteriormente tinha quadros pendurados.

À esquerda vi um longo corredor. Esse corredor era escuro e as paredes tinham a tinta gasta. Percorri-o até chegar a uma sala. A sala era estranha: O chão estava coberto de tinta e à medida que olhava em volta apercebia-me que a porta por onde tinha entrado parecia cada vez mais longe, como se tivesse mudado de lugar. A um canto da sala encontrei uma coisa surpreendente… Uma mala. Peguei-lhe com cuidado e abri-a, e do seu interior saiu uma luz muito forte que me cegou por segundos. Depois do impacto e de voltar a abrir os olhos dei por mim numa casa completamente diferente, era uma casa com mobília e todos esses objectos. Porém, quando saí da sala e vi aquele longo corredor apercebi-me que era a mesma casa.

Mas como ela poderia ter mudado assim?

Com o espantado, confuso e medo que senti, saí da misteriosa casa a correr sem ter chegado a ir ao andar de cima.

Lá fora, na parte detrás da casa, descobri um pequeno jardim, que, que eu tivesse observado antes, não ali estava. Decidi caminhar nele para tentar perceber que era tudo aquilo. Não encontrei nada de mais… Apenas uma típica mesa e cadeiras e uma fonte que quase não deitava água.

Voltei a entrar na casa e compreendi uma coisa: Entre inúmeras possibilidades, tinha a certeza que aquela casa nunca esteve vazia. E porque não a tinha visto assim antes? Porque não era a casa que estava vazia, mas sim a minha alma. A mala que encontrei fez-me perceber isso.

A menina sem palavras

22/05/2009 at 14:50 | In Não classificado | 2 Comments

Ela estava numa divisão da casa. Mais uma vez, sozinha.

Desde que o seu pai desaparecera numa viagem de trabalho, há dois meses, a menina ficou por conta própria. Procuraram-no durante algum tempo mas desistiram, dando-o como morto. A menina nem sequer chegou a conhecer a mãe, ela tinha morrido num acidente quando ela era ainda bebé.

            Não tinha ninguém.

Nessa altura ficou sem palavras, sem voz. Como se a dor que sentisse lhe tivesse automaticamente tirado a voz e não se conseguisse exprimir. Aquela enorme casa onde ela vivia estava cheia de recordações. Penso que foi esse o facto que a deixou naquele estado.

Durante o dia vagueava pela casa devagar, à procura de algo que não existia. Como se tivesse a esperança de entrar na sala e encontrar os seus pais. Mas não, era apenas uma sala vazia com cortinas fechadas, à espera que alguém as abrisse e deixasse entrar a luz e o mundo inteiro fora daquelas quatro paredes.

 Uma noite fria e chuvosa a menina teve um sonho. Sonhou que a sua casa se tinha transformado num lugar completamente diferente, não era bem diferente, apenas manifestava alegria e cor. Também conseguia falar. E aquela velha janela, com as cortinas cerradas, tinha-se aberto e puxado a menina para fora dela. No horizonte viu o mar, e andou em direcção a ele até se aproximar à beira de água. Era uma água transparente como cristal, e o areal amarelinho com conchas por toda a parte. As ondas elevavam-se com uma grande intensidade, acabando depois por caírem junto aos pés da menina. Aquele lugar era um paraíso.

De um momento para outro esse cenário modificou-se, já não era mais uma praia, era a lua. Sim, a menina estava sentada numa ponta da lua, a olhar para cima e a interrogar-se: – O que será que existe ali? Queria tanto descobrir se termina em algum sítio… Queria saber se algum dia terei a possibilidade de ser assim, como o céu, livre e feliz.

Nesse instante aparece o pai dela, como se tivesse caído do céu, do céu que a menina tanto admirava. Quando se aproximou da menina apenas disse: – Filha… Continue reading A menina sem palavras…

Memórias Perdidas

01/03/2009 at 13:17 | In Não classificado | 8 Comments

Um anjo estava no céu, começou a questionar-se como veio ali parar, nunca tinha pensado nisso antes, apenas sempre se lembrava de ali estar. Parecia que as suas memórias tinham sido todas apagadas de há uns anos para trás, como se metade da sua vida nem sequer tivesse existido.

Decidiu então ir até à Terra, para tentar lembrar-se de algo. Esteve a andar pelas ruas, apesar de ninguém o conseguir ver, era como se fosse invisível para as pessoas que estavam vivas, muito raro era alguém conseguir ver, porque se fosse esse o caso seria um humano com poderes sobrenaturais.

Pôs-se a observar como era o dia-a-dia dos humanos, reparou que as pessoas pareciam não o ver só a ele, mas uns aos outros. Passavam tão rápido, preocupados com os seus pensamentos que nem ligavam a mais nada. Depois decidiu passar por uma loja de instrumentos, ele gostava muito de música e achou que nesse lugar talvez encontrasse alguma coisa de familiar. Chamou-lhe à atenção uma pequena caixa de música, no seu interior continha um cisne e começou a tocar uma linda melodia, daquelas que nos parecem da nossa infância… Nesse momento o anjo teve vários flashes, viu uma casa muito grande e pessoas à sua volta, como se estivessem todos a conversar, mas não conseguiu ver bem as caras, as imagens eram demasiado desfocadas.

Aquela procura de identidade tornava-se cada vez mais difícil, parecia que todos os sítios por onde passava lhe lembravam memórias, umas alegres, outras mais tristes, mas tudo relacionado com a sua vida anterior. Tinha a certeza que já tinha vivido antes, não poderia ter sido sempre um anjo. Mas como poderia encontrar respostas? Era tudo tão vago, tão estranho… Aquele sentimento de querer mais, estar à procura de uma coisa que não sabia bem o quê, mas saber que estava nalgum lugar à nossa espera… O vazio na alma, como se estivesse incompleta. Continue reading Memórias Perdidas…

Outro Mundo

03/02/2009 at 22:40 | In Não classificado | 4 Comments

Muitas pessoas contam histórias sobre outro mundo para além do nosso, ou simplesmente de uma espécie de barreira que separa para o lado paralelo de tudo. Pois eu sei de outra história muito diferente de todas essas, em que o “outro mundo” era o nosso. Sim, há pessoas que acreditam nisso, bem vou passar a explicar como tudo se passou: O mundo originalmente criado era bastante melhor em alguns aspectos, como a natureza e estranhamente nunca anoitecia, ficava sempre aquele bonito sol brilhante no céu. Apenas havia um problema, nesse mundo não existiam pessoas, só animais. Os animais não conseguiam cuidar bem do planeta, por isso aos poucos já se começava tudo a destruir. Para o mundo não desaparecer tiveram uma ideia, criar uma espécie superior física e intelectualmente a eles, essa espécie foram os humanos. Agora devem estar a pensar como é que animais conseguiram criar pessoas não é verdade? Muito simples, com essências de árvores e do próprio pêlo deles.

O pior foi depois, os humanos começaram a descobrir coisas e a querer sempre mais e mais, até que chegou ao ponto em que deixaram de dar importância aos animais e a tudo o resto… Já não gostavam daquele mundo, queriam outro diferente, um que fosse criado por eles. Conseguiram fazê-lo, isso não me perguntem como, acho que ninguém chegou a perceber, parecia que tinham ganho poderes muito fortes que depois desapareceram instantaneamente. Esse mundo era o nosso, era aí onde queria chegar, após o nosso mundo ter sido criado o outro que era o original desapareceu. Só que as pessoas depois não souberam tratar dele, tal como aconteceu da primeira vez, começaram a preocupar-se com valores materiais e a pensar só nelas próprias, coisas que ninguém lhes ensinara. Esqueceram-se de tudo o que tinham aprendido no outro mundo, incluindo ele próprio. Perdeu-se toda a magia, transformando-se naquilo que hoje conhecemos, a falsidade tornou-se numa coisa habitual… Mas pode mudar, quem sabe. Continue reading Outro Mundo…

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