O Segredo da Imaginação
14/05/2011 ás 10:33 | Na categoria Não classificado | 1 ComentárioSusy Cleveland acabava de chegar a Water Jewel após uma longa viagem de comboio. Desceu na estação, pousou a sua volumosa e pesada mala no chão, e olhou em volta. Não havia ninguém por perto, somente ela. Podia ouvir o vento soprar de mansinho, vindo dos corredores escuros e antigos. Retirou do bolso um bilhete dobrado em quatro, desdobrou-o, e releu a carta que recebera a semana passada:
“Olá Susy. Como estás? A última vez que nos vimos já foi há algum tempo, lembras-te? Ajudaste-me a mim e à vila inteira a resolver o mistério da fonte. Pois bem, tenho outro enigma para ti: O conde Lawrence foi-se embora da vila, por motivo desconhecido, sem avisar, mas deixou uma mensagem em sua casa, na biblioteca, em que fala sobre a ilusão e imaginação. E, mais importante, quem decifrar o enigma encontra um tesouro escondido na vila! Eu sei o que estás a pensar, este sítio tem imensos segredos por desvendar e parece que cada vez existem mais. Contudo, sei que não és capaz de recusar um desafio como este e muito menos controlar a tua curiosidade apurada. És a única que o pode decifrar. Os habitantes de Water Jewel contam contigo!
Tio Greg.
Susy já era bastante conhecida por aqueles lados pela sua capacidade de raciocínio e dedução. O seu tio admirava-a imenso, tinha orgulho nela, pois não lhe restava mais ninguém, vivia sozinho. Os pais de Susy viajavam permanentemente por causa dos seus empregos, mas nem a
própria filha sabia ao certo o que faziam. Greg insistia, de cada vez que a sobrinha o visitava, de gracejar “Lá andam eles a espiar e prender criminosos
por esse mundo fora! Onde estão desta vez?” e de seguida dava uma gargalhada. Estava convencido de que eram espiões. Susy adorava-o, e por essa razão
prontificou-se logo a partir. Voltou a guardar a carta no bolso e preparava-se para sair da estação, quando de repente sentiu uma tontura e desmaiou.
Ao acordar, a visão estava turva, o que a fez semicerrar os olhos instintivamente e voltar a abri-los o máximo que podia com o objectivo de ver com maior nitidez. Aos poucos, as imagens começaram a criar uma forma definida. A primeira coisa de que Susy se apercebeu foi de que estava deitada num sofá, mirando-o confusa, por todo o seu comprimento. Depois, levantou a cabeça para olhar em frente e viu uma lareira. A esforço, apoiando as mãos no sofá e fazendo pressão nos braços, conseguiu suportar o seu corpo e levantar-se. Concluiu que estava na sala de estar de alguém, ou seja, numa casa, e quase podia jurar que era a da…
Nesse preciso momento ouviu a porta principal destrancar-se.
- Susy, já acordaste! Estás bem, não será melhor sentares-te? – Kate correu para junto de Susy.
- Não vais fechar a porta? – Susy admirou-se.
- Uh… Não, não é preciso. – Kate olhou por segundos para a porta mas voltou a fixar-se em Susy.
Kate era a melhor amiga de Susy na vila. Já se conheciam há muito tempo, desde crianças, e passaram por muitas aventuras juntas. Sempre que Susy tinha um problema ou precisava de ajuda para algo mais delicado, podia sempre contar com o apoio de Kate. Kate era muito simpática, prestável e extremamente perfeccionista em tudo o que fazia.
- Não me lembro do que aconteceu. Como cheguei aqui?
- Bem, – Kate caminhou alguns passos para o lado, na direcção oposta a Susy – Todos estávamos a estranhar demorares tanto a aparecer e, por isso, resolvi ir ter contigo à estação. Quando lá cheguei, para minha grande surpresa, encontrei-te estendida no chão, inconsciente. Fui logo chamar o meu irmão para me ajudar a trazer-te e ele veio a correr, obviamente. – Piscou-lhe o olho em sinal de brincadeira, como que falando de algo que só elas sabiam.
O irmão de Kate, Steven, era apaixonado por Susy desde a infância. E, apesar de ele nunca ter admitido ou
feito uma declaração publicamente, todos sabiam, inclusive a própria Susy, que desmentia por se sentir desconfortável com o assunto. Para ela, Steven era como um irmão, e também não queria fazê-lo sentir triste ou atrapalhado, já que ele era a timidez em pessoa.
- Ah, estou a entender. Então e o meu tio, também sabe que estou aqui?
- Sim, ele disse para ires ter com ele quando já te sentisses melhor.
- Hum… – Susy estava pensativa – Está bem.
Após dito isto, saiu de casa de Kate. Contemplou a vila que não observava há quase dois anos. Nada parecia diferente, aliás, nunca mudava nada em Water Jewel: As pequenas casas em fila ordenada, do mesmo tamanho, todas iguais e bem arranjadinhas, com tons de branco e faixas vermelho claro por baixo das janelas da frente; em cima, tinham varandas médias, com pequenos vasos de flores a decorar os cantos. Aparentemente era um local calmo, mas Susy sabia que por detrás de uma pequena vila existiam sempre grandes mistérios.
Caminhou por entre as ruas, passando a padaria e o teatro, avistando ao longe densas árvores e a familiar estátua de um enorme tigre. Sabia, assim, que estava perto da casa de Greg. Bastava virar à próxima esquina. Por fora, parecia uma casa vulgar, modesta, e ninguém adivinhava a quantidade de objectos valiosos guardados no interior. Greg fazia imensas colecções basicamente sobre tudo. Se encontrasse um objecto perdido que o interessasse, guardá-lo-ia de imediato para o juntar aos outros, inventando um cantinho para o colocar. A casa estava a abarrotar de velharias, mas Greg achava sempre que ainda não eram suficientes. “Nunca se tem arte a mais. Ela enche-nos a alma, e se para isso tenho que encher também a minha casa, que
seja!” era o que ele respondia quando Susy o acusava de não ter espaço para se movimentar. A característica principal de Greg era a teimosia.
Todos na vila conheciam Gregory Cleveland, mas poucos sabiam do seu apreço pela arte e momentos repentinos de filosofia acerca da vida. Greg não gostava de mostrar o seu intelecto, e talvez essa fosse uma das muitas razões por ser um homem solitário, apesar de se mostrar extrovertido com a
maioria das pessoas.
- Tio sou eu! – Chamou Susy, batendo à porta.
Demorou alguns instantes até a porta se abrir, mas finalmente apareceu o tio. Um homem baixo, magro, moreno, cabelo e olhos castanho claro, com ar amigável. Notava-se uma certa semelhança com a sobrinha, partilhando as mesmas características. Susy era uma rapariga magra, parecendo uma adolescente, apesar dos seus vinte e dois anos. Morena, tal como o tio, contrastava com os seus olhos cinzentos e cabelo ondulado castanho quase loiro.
- Tinha tantas saudades! – Susy sorriu e lançou os braços na direcção do seu tio para
lhe dar um forte abraço.
Estranhamente, Greg recuou. A sua expressão amigável mudou rapidamente para uma séria, sem saber bem como agir.
- Que se passa? – A sobrinha ficou um bocadinho triste.
- Desculpa, Susan. Estou com gripe e é melhor não te aproximares. Todos na vila estamos assim, deve ser um vírus qualquer que anda por aí. Aconselho-te a não te aproximares muito dos que estão à tua volta ou podes ficar engripada.
- Oh, está bem. – Greg afastou-se para deixar Susy entrar para o interior da casa.
Susy, examinando a casa cuidadosamente, estava pensativa.
- Podes agora explicar-me com mais pormenores sobre o enigma deixado pelo conde?
- Claro que sim. – Greg estava mais nervoso do que o habitual. – Precisamos de ir à mansão dele.
Não demoraram muito a chegar à mansão, era perto. Susy ficou maravilhada por ver tanto brilho numa casa
enorme. “É estimada”, pensou ela. Havia ouro por todo o lado, até as próprias paredes pareciam ser feitas dele.
O tio conduziu-a até à biblioteca, e que vasta que era! Prateleiras cobertas de livros, arrumados por ordem
alfabética, pendiam ao redor. Por onde quer que nos virássemos, só víamos livros com uma grossura considerada. As estantes eram enormes, tanto de largura como de altura, e iam quase até ao tecto. E este tecto não era normal, tinha uma enorme profundidade côncava no centro, decorado com uma pintura de século XVIII. Para alcançar os livros das prateleiras de cima existiam dois escadotes enormes, com rodinhas. Continue Reading O Segredo da Imaginação…
Pai Natal
26/12/2010 ás 13:20 | Na categoria Não classificado | 1 ComentárioTantas histórias giram em torno do Pai Natal e da forma como todos os anos, no seu trenó, ele distribui prendas nas casas das crianças em todo o mundo. Mas como surgiu o Pai Natal? De onde veio, afinal, esta figura de um homem de barbas brancas e fato vermelho? É essa a história que irei contar.
Há mais ou menos duzentos anos, numa vila, existia um menino que não recebia prendas no natal. A sua família era muito pobre e, por isso, não festejavam o natal. Juntamente com ele viviam os seus pais e seis irmãos. O menino era o mais novo de sete filhos.
Porém, um natal, a mãe do menino teve uma ideia, enquanto estavam os dois sozinhos em casa:
- Filho, o que gostavas de receber este natal? Nós não temos muito dinheiro mas eu queria, nem que fosse apenas uma vez, oferecer prendas a cada um de vocês.
O menino escutou a mãe em silêncio e depois caminhou em direcção à mãe, agarrou-a pela mão e puxou-a para junto da janela embaciada pelo frio. O menino ficou a olhar para o exterior e a mãe seguiu-lhe o olhar, ainda sem compreender.
- Este natal – Murmurou o menino – Eu gostava de uma coisa, mas nem tu nem ninguém ma pode dar.
- O quê?
- Eu queria que nevasse.
- Oh… Mas tu sabes que aqui nunca neva, esse desejo é muito difícil de realizar.
- Eu sei – O menino aproximou-se do vidro, colocando ambas as mãos abertas nele – Mas gostava mesmo de ver neve, de senti-la nas mãos – Deslizou as mãos pelo vidro húmido, deixando marcados os seus dedos.
A mãe não sabia o que responder. Por momentos olhou o filho com tristeza, passando-lhe pela cabeça a ideia tola e impossível de alguma maneira conseguir trazer neve até sua casa, simplesmente para ver um sorriso no rosto daquela criança. A mãe não disse nada e deu um abraço ao seu filho.
Alguns dias depois, aproximando-se cada vez mais o natal, o menino pediu um desejo enquanto estava sozinho.
- Uma vez, nem que seja só uma vez na vida, gostava de ver neve. Por favor, que faça neve no dia de natal.
Os dias passaram a correr e depressa chegou o dia mais importante para o menino. Nesse dia, ele esteve sempre colado ao vidro, sem sair de lá sequer um minuto, à espera que nevasse. Esteve à parte de toda a família, sendo chamado diversas vezes pela mãe para se juntar, mas ele abanava a cabeça e não saía de lá.
Nessa noite, com todos os seis filhos a dormir e o pai, o menino continuava esperançoso à janela. A mãe aproximou-se dele, colocando-lhe a mão no ombro.
- Tenho muita pena, acredita, mas é melhor ires para a cama, não vai nevar.
- Eu tinha a certeza…
O menino virou costas, preparando-se para ir deitar, enquanto a mãe ia fechar a janela. Antes de trancar, ela espreitou para o exterior como que a impulso, e voltou a olhar quando se apercebeu de algo fantástico.
- Filho olha! Olha agora! – Começou a chamar, repetidamente, com um entusiasmo na voz que se esforçava para não levantar o tom.
- O que foi? – O menino finalmente virou-se, aproximando-se da mãe.
- Olha ali, depressa!
O menino espreitou pela janela, e a mãe, satisfeita, fixava-o agora no rosto.
- Não está ali nada.
- Não?! – A mãe rapidamente espreitou pela janela, olhando para todos os lados e voltando a olhar como se procurasse algo – Mesmo agora… Posso jurar que vi… – Gaguejou e disse outras palavras pelo meio que o menino não conseguiu perceber, até a voz ficar abafada.
- O que era, mãe?
- Nada, esquece, devo ter imaginado. Vai dormir.
Mais de cinquenta anos depois, o menino era agora um idoso. Vivia sozinho, tinha umas longas barbas brancas, e nunca tinha visto neve. Continuou a sua vida inteira sem ver neve uma única vez. Ainda assim, ele adorava o natal, sentia a magia em cada canto. Os anos ensinaram-lhe que o natal é muito mais do que receber prendas. O natal é partilha, união, amor, árvores enfeitadas, luzes nas ruas, os risos frenéticos das crianças. O natal é… simplesmente natal. E tudo o que ele representa é maravilhoso.
No entanto, o menino (chamemos-lhe agora Natalício), não abandonara o seu sonho de ver neve. Ele até já tinha planeado juntar dinheiro para visitar outro país em que nevasse. Mas, enquanto isso não acontecia, o Natalício investiu grande parte do seu dinheiro a ajudar orfanatos, preocupando-se sempre em comprar brinquedos para os órfãos na época de natal, carregando-os num saco enorme ao ombro.
Num natal, um natal muito especial, sentia-se algo diferente no ar. O Natalício levantou-se de madrugada, admirando a paisagem pela janela, até que começou a ver um fenómeno completamente novo para ele. Neve. Era neve. Uma neve genuína e pura, branquinha como as nuvens. Primeiro, caíram pequenos farrapos alternadamente, até começarem a cair bolinhas de neve em grande quantidade.
Os olhos de Natalício ficaram incrédulos, depois encheram-se de lágrimas e encostou as mãos ao vidro de repente, com alguma força, encostando também os olhos ao vidro, parecendo não acreditar no que via, tremendo o corpo todo. Após o choque inicial, saiu de casa a correr, esquecendo-se até de fechar a porta, deixando-a escancarada. Natalício olhou para o céu, ainda sem acreditar nos seus próprios olhos. Abriu os braços, levantou a cabeça, fechou os olhos, e deixou que o frio e a neve daquela manhã de natal lhe invadissem os sentidos. Então, abaixou-se, recolheu um montinho de neve na mão, e deixou-a deslizar lentamente por entre os dedos. Foi das melhores sensações da sua vida.
Naquele momento, surge uma voz fina e alegre por trás:
- Olá, amigo! Estás feliz, não estás?
Natalício virou-se e viu um anão vestido de verde, com uma roupa estranha e umas orelhas pontiagudas.
- Quem és tu?
- Isso não importa! Preciso que venhas comigo, anda!
O anão puxou-o para as traseiras da casa de Natalício. Lá, abriu uma passagem.
- Entra! – Convidou o anão.
- Hum… Está bem, acho. Mas vais ter de me explicar… – Natalício ia enfiando a cabeça dentro do buraco, mas não teve tempo de dizer mais nada, pois o anão empurrara-o antes – Aaaah!
- Onde estamos?! – Perguntou Natalício aflito.
- Estamos no Pólo Norte! Bonito, ham? Aqui temos muita neve, vais sentir-te bem – Piscou-lhe o olho e começou a caminhar.
- Espera! Onde vais?
- Para a fábrica, claro! Temos muito trabalho a fazer e vou ter ainda de te explicar umas quantas coisas sobre o que fazemos aqui.
- Não estou a entender nada… Mas vou seguir-te, não tenho outra opção.
Caminharam até chegarem a um portão gigantesco, trancado.
- Então… – Disse Natalício – És um anão, não és?
- Sou um duende! – Respondeu resignado – E os meus companheiros também. Ora vê! – Carregou num botão, de um comando à distância, e abriu o portão – Esta é a nossa fábrica.
Aquela fábrica era um mundo de brinquedos, onde cada duende tinha uma função, construindo os brinquedos à mão e trabalhando de forma sucessiva.
- É… É fantástico! – Exclamou o Natalício.
- Claro que é! Temos tudo bem organizado – O duende sorriu, orgulhoso. Continue Reading Pai Natal…
Bolhas de sabão
23/09/2010 ás 11:32 | Na categoria Não classificado | 1 ComentárioUma torre, acompanhando a majestosa e inabalável estrutura de um castelo, com vários metros de altura, tão forte, tão perfeita. Cada pedra, cuidadosamente unida à sua parceira, parecia indestrutível. Por entre finas ranhuras, encontrava-se musgo e pequenos buracos junto ao chão. A vegetação cobria as paredes do castelo como um manto, e as janelas largas, compridas, estendiam-se por toda a sua dimensão. Um portão, em arco, nas traseiras, dava um ar tipicamente medieval e misterioso. Se estivéssemos fixos a olhar para ele, durante alguns minutos, poderíamos ver e ouvir sons de espadas, cantos líricos e sombras de vestidos longos a atravessar o pátio. Na frente, não existia qualquer portão. E na janela, a do topo, uma menina soprava bolhas de sabão. Os seus cabelos loiros, ondulados, deslizavam em conjunto com a harmonia das bolhas de sabão, sendo arrastadas pelo vento, para bem longe. A menina desejava saber para onde iriam as bolhas, mas nunca o soubera. “Cada uma deve ir para um lugar diferente. Várias cidades, países… Que coisas maravilhosas elas devem visitar! E Eu… Eu fico sempre aqui, neste quarto”, pensava ela, enquanto se virava para trás.
O quarto era lindo, é certo, extremamente bem decorado. De canto, havia uma poltrona de veludo, onde muitas vezes a menina se sentava. À direita, poderíamos ver uma mesa de madeira cor de pinho, com uma gaveta por baixo; a cadeira, ligeiramente afastada, da mesma cor, fazia de suporte a um grande urso de peluche. Do lado esquerdo, estava a cama, uma caminha pequena para alguém desse mesmo tamanho; perto dela, estava uma mesa-de-cabeceira. De frente, uma estante de tamanho médio, madeira escura, carregava pesados livros, distraidamente colocados. Ao lado da estante, tínhamos uma porta directa para uma modesta casa de banho. E porta de saída? Não, não tinha.
Todos os dias, a menina recebia tabuleiros com refeições quentes, sem saber nunca de onde vinham. Estes surgiam no parapeito da janela, antes que ela se apercebesse que eles já lá estavam A menina nunca tinha saído do quarto, aliás, nem se recorda de ter entrado. Era um sentimento vazio estar ali. Aquele lugar era-lhe familiar, no entanto, não era a emoção de algo bom, como de quando somos crianças. Era de algo assustador. Lembrava-se de em tempos não estar sozinha, de estar com uma senhora, que lhe tinha ensinado a falar, andar e tantas outras coisas. Mas, de alguns anos para cá, deixara de aparecer. A memória dessa senhora era já muito vaga. Dos poucos objectos que lhe deixara, incluindo os livros e urso de peluche, entregara-lhe também um recipiente para poder fazer bolhas de sabão. Desde essa altura, a menina todos os dias inclinava-se na janela, soprando bolhas de sabão.
Um dia, porém, decidiu olhar para baixo. A sensação foi de tontura, quase desmaiou. Foi a primeira vez que viu realmente o mundo exterior. Já tinha olhado muitas vezes para o céu, sim, para o horizonte, mas nunca para baixo. Viu o chão, árvores, a estrutura do castelo onde sempre vivera mas nunca tinha visto o seu exterior. Como a ideia de espreitar não lhe tinha passado pela cabeça? Nem ela sabia, mas foi essa a pergunta que perseguiu a sua mente o resto do dia.
O que poderia encontrar? O que poderia ver? Sentir, tocar? Tantas perguntas lhe pairavam na cabeça, e quanto mais pensava nelas mais a ideia lhe agradava. Mas como poderia descer? Se ao menos existisse uma escada…
Nessa noite, adormeceu na poltrona. Sonhou com aquilo que imaginava, o que não imaginava, o que nem sequer queria imaginar. Não queria criar ilusões de saídas, isso seria ingenuidade, mas o “e se…” não parava de a atacar. Até que, quando acordou, um ímpeto de recorrer ao recipiente de bolhas de sabão lhe correu o corpo. Não sabia porquê, nem para quê, mas queria usá-lo. Levantou-se, correu rapidamente para a mesa-de-cabeceira e pegou nele. De seguida, caminhou até ao parapeito da janela, desta vez lentamente, tão lentamente que cada passo parecia mais pequeno que o outro, como se soubesse aproximar-se de perigo, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de andar. Chegou então, finalmente, à janela. Olhou para baixo, o seu maior receio. Bem, dessa vez, não se sentiu tão tonta, mas continuava com medo. O medo pode apoderar-nos. De repente, virou a cabeça para o lado, não queria continuar a olhar. Então, teve uma ideia, uma ideia louca talvez, mas situações desesperadas requerem medidas desesperadas, não é?
A menina começou por soprar as bolhas de sabão, como sempre fazia, mas desta vez soprava-as rápido, seguidas umas às outras, como se tivesse a intenção de juntá-las. As bolhas começaram por formar uma onda, depois, criaram uma forma mais definida: Formaram uma escada. Uma escada em caracol, com dois sentidos: Um para cima e outro para baixo. “Para cima?” Interrogou-se a menina. A medo, colocou um pé no parapeito, de seguida, apoiando-se com a mão direita na parede, colocou o outro. Sentiu-se quase a tombar, mas felizmente, conseguiu manter o equilíbrio. Ponderou se deveria saltar ou não para o primeiro degrau da escada de bolhas de sabão. E se esta rebentasse? Era um risco. Então, após reflectir, saltou a pés juntos.
A escada, por incrível que pareça, continuou intacta. As bolhas resplandeciam à luz do sol cheias de cor, vida, como um arco-íris; eram tão frágeis mas simultaneamente tão alegres, brilhantes. A menina olhava para elas, à medida que subia os primeiros degraus, como se estivesse a contemplar diamantes. Então, a uma certa altura, parou.
“Agora não sei que caminho escolher”. Olhou para os dois lados. “A menos se…”. Caminhou delicadamente e, no ponto em que as duas escadas se separavam, cruzou-as. Foi complicado fazê-lo sozinha, as bolhas tinham tendência a escapar, mas acabou por conseguir. Continue Reading Bolhas de sabão…
A Túlipa
28/07/2010 ás 13:51 | Na categoria Não classificado | 3 ComentáriosPassos largos, apressados, pisavam pequenas poças de chuva ao nascer do dia. As ruas estavam desertas e a leve brisa levantava delicadamente os cabelos de Helena. Esta, ao ver uma folha cair à sua frente, parecendo ondear ao sabor de uma música calma, abriu a palma da sua mão em forma de concha e deixou-a cair, ao que a contemplou como um presente caído do céu, dando a esperança de um novo dia. Porém, a caminhada não ajudava a resolver os problemas. Se fosse assim tão fácil…
Helena pensava nos seus sentimentos, nas mentiras, promessas quebradas e como a vida pode ser tão injusta, tão solitária. Nesse momento o mundo pesava muito, muito mais do que ela podia aguentar. E nisto, sem se dar bem conta, chegou a uma floresta. Era uma floresta maravilhosa: Troncos de árvores estendiam-se até ao infinito, formando um círculo. Helena fixou-os, começou a andar à roda, sempre fixada nos ramos, até parecer completamente hipnotizada por eles. Pareciam um ciclo vicioso, sem entradas, sem saídas. Representavam bem o que Helena atravessava dentro da sua alma. Por fim, ao sentir-se tonta de andar às voltas, desequilibrou-se, prestes a cair no chão, ao mesmo tempo que chega alguém. Essa pessoa vinha a correr, de certeza, porque esbarrou com Helena, por trás, com uma força que mais parecia um empurrão. Mesmo assim, Helena caiu, mais depressa, virando-se para trás para ver quem era, mas já não estava lá ninguém. Depois, permaneceu sentada a admirar a paisagem. Mais tarde, regressou a casa, sozinha.
No dia seguinte voltou à floresta, e mais uma vez encontrava-se junto às árvores em círculo, encostada a um dos troncos. De repente, ouve uma voz, a cantar, como se estivesse muito perto. Levantou-se bruscamente e espreitou para a direita, esticando o pescoço, mas não viu nada. Espreitou então para a esquerda, mas o resultado foi o mesmo. Deu alguns passos em frente, recuando dois, ao assustar-se com um barulho de um animal. Manteve-se alguns segundos imóvel, mas decidiu avançar. Encontrou um rapaz sentado junto a um tronco, tal como ela costumava estar. “Olá…” disse Helena timidamente, com um tom de voz tão baixo que se não fosse o ambiente silencioso da floresta ninguém a conseguiria ouvir. Mas o rapaz não respondeu, apesar de estar apenas cerca de um metro de distância dela, parecia não ter ouvido, nem sequer dirigiu um olhar, nada. Parecia estar demasiado abstraído nos seus pensamentos. “Olá!”, repetiu novamente, desta vez mais alto. O rapaz virou a cabeça de repente, olhando-a nos olhos, como se tivesse explodido uma bomba. Mas, após isso, o rapaz virou outra vez a cabeça para a frente, olhando pacificamente, como se continuasse sozinho.
Helena sentiu-se ignorada. Pensou em ir embora, seria o mais óbvio, mas não o fez. Aproximou-se.
- Posso sentar-me aqui? – Perguntou, apontando com o indicador para o chão, ao lado rapaz.
O rapaz lançou-lhe um olhar breve, respondendo simplesmente, “podes”. Helena ficou satisfeita por obter resposta, era a primeira vez que lhe ouvia a voz, esboçando um pequeno sorriso e sentando-se a seu lado.
- Eras tu que estavas a cantar? – Perguntou, com receio e curiosidade.
- E se fosse? – Respondeu com indiferença, sempre sem olhar para ela.
- Bem… Nada… Não tem nada de mal – Helena baixou os olhos – Posso perguntar-te porque estás aqui sozinho?
- Tu também estás.
Exacto, Helena também estava, e devia saber que ao fazer uma pergunta dessas corria o risco de ser “obrigada” a confessar as suas razões por ali estar, e isso não lhe interessava. Continue Reading A Túlipa…
Futuro
05/07/2010 ás 11:23 | Na categoria Não classificado | Publicar um comentárioAinda me lembro de quando avistava o futuro, pela janela, olhando o infinito céu. Pensava em tudo o que poderia fazer, no que me iria tornar. Mas esse futuro longínquo passou. Hoje, é o meu presente, e foi o meu passado.
Vejo que nada é como imaginava.
Os anos seguiram, os meses, dias, horas… O futuro é muito relativo. Até mesmo o próximo minuto será o futuro.
A eterna ignorância sobre o que vai acontecer. Sem uma pista, algo que me guie neste labirinto às escuras.
No entanto ainda me consigo ver, num misto de passado e presente, que me clareiam as inúmeras possibilidades e a melhor escolha.
Quem diria… Quem diria que eu iria estar a escrever isto neste momento? Ou o simples facto de estar onde estou, com quem estou.
Às vezes, tenho premonições. Consigo calcular o que se vai suceder pelo resultado de uma situação anterior.
Mas tudo isto é divagar. Ninguém realmente sabe o futuro, apenas pode estar perto dele, ou dentro dele sem saber. Para mim, estar dentro do futuro significa uma mudança, uma rampa de lançamento nas nossas vidas. Para o melhor ou o pior, o futuro serve para substituir tudo o que aconteceu até então.
Há quem diga que queira parar o tempo, ou avançá-lo. Eu não, só quero que ele flua de maneira natural. Vou crescer, notar em mim diferenças de dia para dia, saber que alguém me espera, acordar com um sentido para seguir em frente, sentir a chuva na minha pele… Tudo isto são sensações. Sensações que o vento leva, mas o futuro traz de volta.
Um espelho. Estou agora a olhar para um. Talvez seja o reflexo da alma, de um lago, de um toque puro no vidro. Estou a percorrer todo o seu comprimento com o indicador, de cima para baixo, suavemente como uma carícia na pele de um bebé. Mas algo inesperado aconteceu. Emergiu do seu interior uma luz forte, brilhante, até me atrevo a dizer dourada. O espelho tornou-se num mar cheio de ondas bravas, onde precipitadamente entrei.
Não consigo ver nada, a luz é demasiado intensa. À minha roda só vejo sombras, a perseguirem-me, a agarrarem-me. Elas querem-me prender, mas eu não deixo, sei que sou mais forte que elas. E agora que me libertei das sombras continuo a caminhar em frente, em que me parece ver qualquer coisa. Uma porta? É, é uma porta. Que fará num sítio como este? Não faço a mínima ideia, mas estou a abri-la, vou descobrir. O que é isto, a minha cidade? Reconheço algumas características mas… É como se tivessem passado uns bons anos…
Continuo a caminhar, sem rumo, sem medo, com o intuito de chegar a algum lugar. Eu sei que onde quer que esteja vou sempre encontrar o meu lar, um sítio onde me sinta bem. Basta um objecto simbólico que me recorde da infância, da nostalgia de felicidade que tive naquela época e sei que se repetirá.
Contemplo perante mim uma árvore. Enorme, esplendorosa, com um tronco e ramos fortes, uma estrutura inabalável e poderosa, parecendo alcançar a outra ponta do mundo.
Atravessei o passeio. O mesmo que eu pisara em tempos, aquele que eu pisava agora, e o mesmo que pisava no futuro. O caminho turbulento da vida.
Se aquele era o futuro, tal como parecia ser, não era o que as pessoas costumavam dizer. Não tinha objectos a flutuar, nem a Natureza desapareceu. Embora não sei em que época estou, o que dificulta a minha noção de quanto evoluiu o mundo.
Agora, vejo borboletas. A primeira vez em que tal vi belas criaturas. Esvoaçantes, livres, coloridas e no entanto tão delicadas… Lembro-me de mim própria, e da vida, que é frágil e insignificante no fim de contas. Esses insectos esperam, para sair do casulo, pela sua transformação e o futuro, mas logo termina a sua viagem de forma fatal.
Magia. Vocês acreditam? Eu acredito nela, mas nunca pensei que existisse no sentido literal da palavra. Agora acredito. Neste momento vejo o espectáculo mais bonito da minha vida, o nascimento de novas espécies, de novas borboletas a saírem e rasgarem o casulo que as prende. Elas voam. Voam como se não houvesse amanhã, como se voar dependesse das suas vidas, fazendo-o com toda a intensidade.
A magia existe não para quem a quer ver, mas para quem acredita, e vê nas pequenas coisas algo de extraordinário.
A minha busca continua. Sinto como se tivesse renascido, e este caminho fosse a vida. Deparo-me com obstáculos, etapas, pessoas, situações… Mas não paro. Parar significaria desistir.
Vejo ao longe uma pessoa. É uma rapariga, tenho quase a certeza. Mas está de costas, sentada num banco, não lhe consigo ver o rosto. Estou a aproximar-me. Ela levantou-se. Está a conversar com duas raparigas que acabaram de chegar. Eu conheço-as muito bem, principalmente a primeira. Mas quem serão?
As duas raparigas foram-se embora e a primeira voltou a sentar-se. Agora, tirou da mala um bloco e caneta. Parece que está a escrever.
Aquela silhueta… A concentração e firmeza com que escreve é-me tão familiar…
O que… O que está a acontecer?! Está a desaparecer tudo! O meu corpo está a ficar transparente!
Voltei. Ao presente creio eu. Estou de novo em frente ao espelho. Será que aquela rapariga era eu? Ficarei para sempre na dúvida… Para sempre não, no futuro saberei.
Aconteça o que acontecer, não quero deixar de escrever. Um dia, quero alcançar os corações das pessoas com as minhas palavras, e no momento em que isso aconteça, a minha missão estará cumprida.
Quero juntar o melhor dos três mundos e torná-lo num só: Um presente sem limite, uma linha sem tempo.
Regressar à inocência de uma criança, em que não tem noção do tempo, apenas pensando no dia de amanhã. É tudo o que quero.
Reflexão de uma mente confusa
31/03/2010 ás 12:40 | Na categoria Não classificado | 3 ComentáriosAquela pessoa que eu conheço, já faz algum tempo, sempre me incomodou, quer dizer, é alguém bastante familiar mas ao mesmo tempo não a compreendo. Às vezes parece que tem dupla personalidade. É alguém que não sabe o quer, nem de onde vem. Talvez seja difícil falar com uma pessoa assim, além do mais quando é nossa amiga.
Talvez, nos demos tão bem por sermos parecidas. Quem sabe se também eu não serei estranha.
Desde que a conheço que faz e pensa sempre coisas diferentes dos outros, como se fosse mais velha, alguns anos. Ao início, ela não se apercebia disso, era criança, ingénua, para ela era normal. Mas, com o passar dos anos, tudo começou a mudar.
As pessoas não queriam saber, nem dela, nem do resto do mundo. Cada parte de nós é uma parte do mundo, por isso, para eles tanto fazia o que se passava ou deixava de passar.
Ela tornou-se numa pessoa frustrada, fechada em si mesma, com ódio pelo mundo. O mundo que tanto adorou em tempos, e que a fascinava. Muitas vezes, os nossos melhores sonhos viram-se contra nós.
Durante anos, dias sem fim, horas… A vida foi monótona, solitária, injusta para com ela. Tentou mudar, mas todas as tentativas foram em vão. Nada mudou. A vida dela não mudou. Pelo menos era o que pensava.
O mundo gira, sem parar, se calhar é por isso que andamos sempre a correr e não paramos para pensar um bocado. Porém, nós podemos tentar abrandá-lo.
”O meu sonho é demasiado pesado para mim, por isso imagino apenas que voo, já que não posso voar.” Ela dizia-me isto muitas vezes, e nunca percebi bem o que significava, mas agora sei. Quando nos cortam as asas, ou sobrecarregam-nos com algo que não tem nada a haver connosco, é isto que acontece: Imaginamos.
Não digo que a imaginação seja um inimigo, pelo contrário, adoro-a. E ela também, ajudou-a em momentos muito difíceis. A imaginação existe, apesar de não a sentir-mos, podemos vê-la, contemplá-la. Cada um de nós tem uma imaginação única, que mais ninguém consegue alcançar. É como um cofre fechado, bem longe daqui.
Essa minha amiga tinha uma imaginação invulgar, conseguia inventar histórias que nunca antes ouvi. Pediu-me que escrevesse isto, que contasse a sua própria história, quando podia ter sido ela a fazê-lo, talvez porque não se sentisse à vontade.
Ela afirma que foi a sua imaginação que a salvou. Impediu-a de ficar triste, avançar, e esperar que melhores dias viessem. Talvez foi por isso, que passado tanto tempo, alcançou o seu grande sonho, que afinal, não era tão pesado quanto isso. A vida surpreendeu-a, deu-lhe uma segunda oportunidade para acreditar nos outros. E que sonho era esse? Ter amigos. Nada mais simples, não é? Depende do ponto de vista, e de quem deseja.
As coisas mudaram, ela mudou. Aos poucos, tornou-se na pessoa que sempre quis ser. As feridas ainda não sararam por completo, eu sei, mesmo quando ela me diz que sim.
Pode levar anos, mas a alma cura-se, através de muita paciência e empenho.
As mentes mais confusas são por vezes aquelas que têm maior talento e menor compreensão. E seremos sempre insatisfeitos, porque a vida não é como a nossa imaginação. Nem da nossa, nem de ninguém.
Ilusão
15/02/2010 ás 14:43 | Na categoria Não classificado | 3 ComentáriosUm sonho. Um sonho que nunca se repete. Sempre diferente, real, enublado. Porém, as paisagens são as mesmas e as pessoas.
Existem fases. Nesse sonho já encontrei inúmeras coisas. Neste momento, estou numa fase transitória, eu sinto. Mas há certas situações que me são familiares, apesar de nunca terem aparecido no sonho antes.
O pior, é quando o sonho se torna num pesadelo. Acontece muitas vezes. O cenário modifica-se, fica frio e escuro; triste. Depois, há momentos em que o sol brilha, bem alto, em que estou no topo de uma montanha.
O mais estranho é quando acontecem coisas que eu não programei, que aconteceram por si só. Faz-me sentir que o sonho não é meu, mas de outra pessoa qualquer.
Sabem o que é melhor? Lutarmos, enfrentar batalhas e ganhar. Não há nada mais gratificante. E às vezes dão cá uma volta… As batalhas infindáveis também se tornam em vitórias, com sorte, e ficamos a pensar que tudo valeu a pena. Damos por nós a pensar o quanto ridículo era a ideia de desistir.
Nuvens. Quase que as sinto, quase que as toco nos meus sonhos. Mas não chego, não consigo alcançar o irreal, o que é frustrante. Apesar de este sonho ser quase perfeito falta um elemento, um complemento chave. Procuro nos cantos às apalpadelas, em todo o tamanho que o meu sonho tem. Ele é tão grande… Como o meu coração, como o mundo inteiro. Mas esse elemento não se quer mostrar, está bem escondido desde sempre.
Sempre. É uma palavra tão forte, não é? Para mim não representa algo que não acaba, porque isso não existe. É mais uma lentidão que custa a passar e dura até ao inimaginável. Se vocês pudessem, muito honestamente, fariam o vosso sonho parte desse universo? Sim, todos nós temos um sonho, cada um diferente e especial.
Acordar. Será que alguma vez acordei desse sonho? Ou irei algum dia acordar… Tenho medo que acabe, mas ao mesmo tempo curiosidade. Quando entrei, qual foi o momento que o vi pela primeira vez? Não me recordo, parece que sempre estive lá.
Boneco de neve
21/12/2009 ás 17:14 | Na categoria Não classificado | 3 ComentáriosHá muito tempo atrás, um boneco de neve permanecia todos os natais no mesmo lugar, sem se derreter. Parecia quase impossível como ele era o único que não derretia, passando anos e anos.
Ao longo desse tempo, ele observava as diferentes gerações de crianças que o rodeavam e brincavam à sua volta. E o engraçado, é que apesar de serem sempre pessoas e épocas diferentes, as brincadeiras pouco variavam.
No dia de natal, já era tradição as pessoas reunirem-se ao pé daquele boneco de neve. Diziam que era um milagre, uma entidade natalícia que os protegia durante o rigoroso inverno.
O boneco de neve adorava o natal, e a festa que as pessoas faziam, mas tudo isso terminava depressa. Só durante dois dias, uma vez por ano, assistia àquele espectáculo. O resto do ano passava despercebido, ninguém ligava ao bonequinho em tempo de calor.
Porém, um natal, três meninas pararam junto ao boneco de neve e olharam-no fixamente. Parecia que estavam à espera que ele dissesse alguma coisa, ou falasse. Então ele pensou: “Mas que estão elas a fazer? Eu não falo, não me consigo mexer… Mas penso. Sim, eu penso. Sinto. E sinto-me sozinho.”
Uma das meninas abraçou-o. Embora a neve estivesse extremamente fria, ela abraçou-o como a um ser humano.
A neve começou a derreter. Foram como lágrimas a descongelar, um coração gélido a aquecer.
Por baixo daquele monte de neve saiu um anjo. Um lindo anjo que esteve anos sem conta escondido por baixo da espessa neve branca. Ele voou, rodopiou, seguiu, e desapareceu para bem longe.
Aos poucos, começaram a cair flocos de neve, e as três meninas ficaram satisfeitas a admirar a paisagem fria e branquinha. Afinal, o natal serve para demonstrarmos a amizade uns pelos outros, não é verdade?
Metamorfose
19/11/2009 ás 15:41 | Na categoria Não classificado | 5 ComentáriosEle continuava a jogar basquetebol. Dias sem parar, como o fazia há anos. Os seus movimentos eram rápidos, passava a bola de uma mão para a outra com uma facilidade enorme, parecendo que deslizava. Mas quando encestava é que voava, sim, voava literalmente. Ele transmitia uma sensação de liberdade e alegria para todos que o viam.
Não fazia mais nada, para além de ir às aulas claro, era a sua única dedicação a tempo inteiro. Admirado por todos, e umas notas razoavelmente boas, tinha tudo para ser feliz. Mas não o era.
Apesar de aparentar uma personalidade descontraída, isso apenas acontecia enquanto jogava, depois disso, voltava sozinho para casa e ali permanecia, à espera que os pais chegassem. Tinha o seu irmão mais velho, é verdade, porém não lhe servia de grande companhia; digamos que feitios parecidos não se entendem.
A rotina pode ser algo positivo, mas não quando ela nos atraiçoa e faz desejar trocarmos de vida com outra pessoa qualquer.
Todos os dias, de manhã, Ele cruzava-se no caminho com vários colegas, e uma rapariga que virava sempre numa esquina à direita, enquanto Ele seguia em frente. Durante esse caminho, que parecia interminável, os seus passos ecoavam no silêncio, caminhando devagar, preparando-se para outro dia igual: As mesmas pessoas, as mesmas conversas, o mesmo “bom dia” neutro que ninguém lhe apetece dizer, e as mesmas aulas que não levavam a lado nenhum; apenas para marcar presença.
Ela, naquele caminho em que virava sempre à direita, ia rodeada de amigas. Pessoas simpáticas é certo, mas muito superficiais, sem noção do que realmente queriam fazer da vida, e a ignorância de que uma roupa cara faz uma rapariga ser uma pessoa melhor. Ela apenas ouvia, sorria, e respondia com frases curtas; porque tinha receio que percebessem que metade das coisas nem ouvira. Ela, coitada, representava constantemente, para mostrar que era “uma delas”.
Após chegarem à escola, dispersavam-se, reunindo-se nos grupinhos do costume.
Ela achava-se feliz, mesmo sabendo que tudo era teatro, e as pessoas não lhe ligavam assim tanta importância como queriam fazê-la crer.
Quando Ela saía das aulas, ia até ao ginásio da escola, para admirar de longe a equipa de basquetebol. Mas logo voltava para casa, pensando que aquele lugar não lhe pertencia.
Porém, um dia, decidiu ficar a assistir a um treino. Até que a bola rolou junto a si, aos seus pés. Fitou-a com um olhar surpreendido, indecisa se deveria apanhá-la ou não. Um rapaz aproximou-se dela, e quando Ela a ia agarrar, eles tocaram-na ao mesmo tempo.
Dois mundos cruzaram-se. As borboletas solitárias encontraram-se uma à outra.
- Onde já te vi? – Perguntou Ele.
- Não sei, mas sinto que te vi quase a minha vida toda.
Para além daquilo que se vê
29/10/2009 ás 20:14 | Na categoria Não classificado | 1 ComentárioA noite
As sombras
Lua
Escuridão
Um nevoeiro abençoado
Que não deixa ver nada
Nem sequer a minha mão
Aquele reflexo no céu tem continuado
E parece o mar na terra
Quero afundar-me nele
Encontrar, algo mais para além daquela serra
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