Futuro
05/07/2010 ás 11:23 | Na categoria Não classificado | Publicar um comentárioAinda me lembro de quando avistava o futuro, pela janela, olhando o infinito céu. Pensava em tudo o que poderia fazer, no que me iria tornar. Mas esse futuro longínquo passou. Hoje, é o meu presente, e foi o meu passado.
Vejo que nada é como imaginava.
Os anos seguiram, os meses, dias, horas… O futuro é muito relativo. Até mesmo o próximo minuto será o futuro.
A eterna ignorância sobre o que vai acontecer. Sem uma pista, algo que me guie neste labirinto às escuras.
No entanto ainda me consigo ver, num misto de passado e presente, que me clareiam as inúmeras possibilidades e a melhor escolha.
Quem diria… Quem diria que eu iria estar a escrever isto neste momento? Ou o simples facto de estar onde estou, com quem estou.
Às vezes, tenho premonições. Consigo calcular o que se vai suceder pelo resultado de uma situação anterior.
Mas tudo isto é divagar. Ninguém realmente sabe o futuro, apenas pode estar perto dele, ou dentro dele sem saber. Para mim, estar dentro do futuro significa uma mudança, uma rampa de lançamento nas nossas vidas. Para o melhor ou o pior, o futuro serve para substituir tudo o que aconteceu até então.
Há quem diga que queira parar o tempo, ou avançá-lo. Eu não, só quero que ele flua de maneira natural. Vou crescer, notar em mim diferenças de dia para dia, saber que alguém me espera, acordar com um sentido para seguir em frente, sentir a chuva na minha pele… Tudo isto são sensações. Sensações que o vento leva, mas o futuro traz de volta.
Um espelho. Estou agora a olhar para um. Talvez seja o reflexo da alma, de um lago, de um toque puro no vidro. Estou a percorrer todo o seu comprimento com o indicador, de cima para baixo, suavemente como uma carícia na pele de um bebé. Mas algo inesperado aconteceu. Emergiu do seu interior uma luz forte, brilhante, até me atrevo a dizer dourada. O espelho tornou-se num mar cheio de ondas bravas, onde precipitadamente entrei.
Não consigo ver nada, a luz é demasiado intensa. À minha roda só vejo sombras, a perseguirem-me, a agarrarem-me. Elas querem-me prender, mas eu não deixo, sei que sou mais forte que elas. E agora que me libertei das sombras continuo a caminhar em frente, em que me parece ver qualquer coisa. Uma porta? É, é uma porta. Que fará num sítio como este? Não faço a mínima ideia, mas estou a abri-la, vou descobrir. O que é isto, a minha cidade? Reconheço algumas características mas… É como se tivessem passado uns bons anos…
Continuo a caminhar, sem rumo, sem medo, com o intuito de chegar a algum lugar. Eu sei que onde quer que esteja vou sempre encontrar o meu lar, um sítio onde me sinta bem. Basta um objecto simbólico que me recorde da infância, da nostalgia de felicidade que tive naquela época e sei que se repetirá.
Contemplo perante mim uma árvore. Enorme, esplendorosa, com um tronco e ramos fortes, uma estrutura inabalável e poderosa, parecendo alcançar a outra ponta do mundo.
Atravessei o passeio. O mesmo que eu pisara em tempos, aquele que eu pisava agora, e o mesmo que pisava no futuro. O caminho turbulento da vida.
Se aquele era o futuro, tal como parecia ser, não era o que as pessoas costumavam dizer. Não tinha objectos a flutuar, nem a Natureza desapareceu. Embora não sei em que época estou, o que dificulta a minha noção de quanto evoluiu o mundo.
Agora, vejo borboletas. A primeira vez em que tal vi belas criaturas. Esvoaçantes, livres, coloridas e no entanto tão delicadas… Lembro-me de mim própria, e da vida, que é frágil e insignificante no fim de contas. Esses insectos esperam, para sair do casulo, pela sua transformação e o futuro, mas logo termina a sua viagem de forma fatal.
Magia. Vocês acreditam? Eu acredito nela, mas nunca pensei que existisse no sentido literal da palavra. Agora acredito. Neste momento vejo o espectáculo mais bonito da minha vida, o nascimento de novas espécies, de novas borboletas a saírem e rasgarem o casulo que as prende. Elas voam. Voam como se não houvesse amanhã, como se voar dependesse das suas vidas, fazendo-o com toda a intensidade.
A magia existe não para quem a quer ver, mas para quem acredita, e vê nas pequenas coisas algo de extraordinário.
A minha busca continua. Sinto como se tivesse renascido, e este caminho fosse a vida. Deparo-me com obstáculos, etapas, pessoas, situações… Mas não paro. Parar significaria desistir.
Vejo ao longe uma pessoa. É uma rapariga, tenho quase a certeza. Mas está de costas, sentada num banco, não lhe consigo ver o rosto. Estou a aproximar-me. Ela levantou-se. Está a conversar com duas raparigas que acabaram de chegar. Eu conheço-as muito bem, principalmente a primeira. Mas quem serão?
As duas raparigas foram-se embora e a primeira voltou a sentar-se. Agora, tirou da mala um bloco e caneta. Parece que está a escrever.
Aquela silhueta… A concentração e firmeza com que escreve é-me tão familiar…
O que… O que está a acontecer?! Está a desaparecer tudo! O meu corpo está a ficar transparente!
Voltei. Ao presente creio eu. Estou de novo em frente ao espelho. Será que aquela rapariga era eu? Ficarei para sempre na dúvida… Para sempre não, no futuro saberei.
Aconteça o que acontecer, não quero deixar de escrever. Um dia, quero alcançar os corações das pessoas com as minhas palavras, e no momento em que isso aconteça, a minha missão estará cumprida.
Quero juntar o melhor dos três mundos e torná-lo num só: Um presente sem limite, uma linha sem tempo.
Regressar à inocência de uma criança, em que não tem noção do tempo, apenas pensando no dia de amanhã. É tudo o que quero.
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