A Túlipa

28/07/2010 ás 13:51 | Na categoria Não classificado | 3 Comentários

Passos largos, apressados, pisavam pequenas poças de chuva ao nascer do dia. As ruas estavam desertas e a leve brisa levantava delicadamente os cabelos de Helena. Esta, ao ver uma folha cair à sua frente, parecendo ondear ao sabor de uma música calma, abriu a palma da sua mão em forma de concha e deixou-a cair, ao que a contemplou como um presente caído do céu, dando a esperança de um novo dia. Porém, a caminhada não ajudava a resolver os problemas. Se fosse assim tão fácil…

            Helena pensava nos seus sentimentos, nas mentiras, promessas quebradas e como a vida pode ser tão injusta, tão solitária. Nesse momento o mundo pesava muito, muito mais do que ela podia aguentar. E nisto, sem se dar bem conta, chegou a uma floresta. Era uma floresta maravilhosa: Troncos de árvores estendiam-se até ao infinito, formando um círculo. Helena fixou-os, começou a andar à roda, sempre fixada nos ramos, até parecer completamente hipnotizada por eles. Pareciam um ciclo vicioso, sem entradas, sem saídas. Representavam bem o que Helena atravessava dentro da sua alma. Por fim, ao sentir-se tonta de andar às voltas, desequilibrou-se, prestes a cair no chão, ao mesmo tempo que chega alguém. Essa pessoa vinha a correr, de certeza, porque esbarrou com Helena, por trás, com uma força que mais parecia um empurrão. Mesmo assim, Helena caiu, mais depressa, virando-se para trás para ver quem era, mas já não estava lá ninguém. Depois, permaneceu sentada a admirar a paisagem. Mais tarde, regressou a casa, sozinha.

            No dia seguinte voltou à floresta, e mais uma vez encontrava-se junto às árvores em círculo, encostada a um dos troncos. De repente, ouve uma voz, a cantar, como se estivesse muito perto. Levantou-se bruscamente e espreitou para a direita, esticando o pescoço, mas não viu nada. Espreitou então para a esquerda, mas o resultado foi o mesmo. Deu alguns passos em frente, recuando dois, ao assustar-se com um barulho de um animal. Manteve-se alguns segundos imóvel, mas decidiu avançar. Encontrou um rapaz sentado junto a um tronco, tal como ela costumava estar. “Olá…” disse Helena timidamente, com um tom de voz tão baixo que se não fosse o ambiente silencioso da floresta ninguém a conseguiria ouvir. Mas o rapaz não respondeu, apesar de estar apenas cerca de um metro de distância dela, parecia não ter ouvido, nem sequer dirigiu um olhar, nada. Parecia estar demasiado abstraído nos seus pensamentos. “Olá!”, repetiu novamente, desta vez mais alto. O rapaz virou a cabeça de repente, olhando-a nos olhos, como se tivesse explodido uma bomba. Mas, após isso, o rapaz virou outra vez a cabeça para a frente, olhando pacificamente, como se continuasse sozinho.

            Helena sentiu-se ignorada. Pensou em ir embora, seria o mais óbvio, mas não o fez. Aproximou-se.

- Posso sentar-me aqui? – Perguntou, apontando com o indicador para o chão, ao lado rapaz.

            O rapaz lançou-lhe um olhar breve, respondendo simplesmente, “podes”. Helena ficou satisfeita por obter resposta, era a primeira vez que lhe ouvia a voz, esboçando um pequeno sorriso e sentando-se a seu lado.

- Eras tu que estavas a cantar? – Perguntou, com receio e curiosidade.

- E se fosse? – Respondeu com indiferença, sempre sem olhar para ela.

- Bem… Nada… Não tem nada de mal – Helena baixou os olhos – Posso perguntar-te porque estás aqui sozinho?

- Tu também estás.

            Exacto, Helena também estava, e devia saber que ao fazer uma pergunta dessas corria o risco de ser “obrigada” a confessar as suas razões por ali estar, e isso não lhe interessava.

- Se calhar estou-te a incomodar, é melhor ir-me embora – Helena levantou-se e ia começar a caminhar.

- Desde que não me faças perguntas, podes ficar.

- Está bem – Sentou-se – De qualquer forma não me apetece muito conversar.

            Longos minutos, quem sabe horas, permaneceram em silêncio. Até que o rapaz falou:

- Já se está a fazer tarde… Os teus pais não vão ficar preocupados?

            Helena olhou-o com ar aterrorizado, como se lhe tivessem tocado numa ferida, ainda muito recente, do coração.

- Disse alguma coisa que não devia?

- Não, não… É que, sabes, não tenho pais à minha espera, em casa…

- Então? – Virou-se mais para ela, parecendo interessado, até mesmo preocupado.

- Pensava que não gostavas de perguntas, ou, talvez, sejam só sobre ti – Fez um sorriso triste.

- Mais ou menos… Fazemos um acordo: Tu contas-me o que se passa e eu conto-te o que faço aqui, ok?

- Deixei de acreditar em promessas – O sorriso triste acentuou-se mais, tanto que parecia para conter as lágrimas que teimavam por sair – Mas tens razão numa coisa: Já é hora de me ir embora.

            Helena desapareceu por entre as densas árvores, sem sequer ter ouvido o rapaz chamar, gritando “espera!”.

            Passaram-se vários dias desde então, e Helena nunca mais foi à floresta. O rapaz não deixava de pensar nela, no que se poderia ter sucedido para ela ter fugido e aquela reacção. Assim, uma semana depois, enquanto o rapaz olhava para o sol, cobrindo um pouco os olhos com a mão, na floresta, Helena surgiu. Ao princípio, ele não notou a presença, só ao ouvir passos a pisar a relva é que se apercebeu. Ao vê-la, ficou perplexo: Helena estava pálida, magríssima, os olhos esbugalhados e vermelhos – Parecia um autêntico fantasma. O rapaz sobressaltou-se, levantando-se de um pulo:

- O que é que te aconteceu, miúda?! Não te via há dias e, agora, estás assim…

            Helena não lhe respondeu. Fisicamente estava ali, mas mentalmente não. Tinha um olhar vazio, distante.

- Hei, acorda! – O rapaz pôs-lhe as mãos nos ombros, abanando-a com alguma pressão – Olha – Soltou-a – Começo a sentir-me culpado… Tem a ver comigo, não tem? Tu ficaste muito triste da última vez que falámos.

- Não. O único ser que culpo, e odeio, é o mundo.

            Nesse momento, Helena contou finalmente a verdade. O seu pai, homem autoritário, sempre sério, de poucas palavras, tinha uma posição perante a vida não lá muito saudável – As aparências. Desde criança, Helena recordava-se de o seu pai dizer: “Não faças isso!”, “está quieta!”, “olha as pessoas, o que é que elas vão pensar?”. Além disso, aproveitava sempre uma oportunidade para julgar os outros: “Nunca me enganou…” repetia-o, vezes sem conta, mesmo que não fosse verdade ou a pessoa em causa estivesse inocente, com a sua voz rouca e firme. Mas, às vezes, aquilo que dizemos vira-se contra nós. Era esse o caso. Há relativamente poucos dias, Helena descobriu que o seu pai tinha um grande segredo. Ao vasculhar umas gavetas, necessitando de um documento, encontrou vários papéis antigos, entre eles um com a sua adopção. O choque. Helena compreendeu, ao ler, que a sua adopção tinha sido feita apenas por ele. Batia certo, já que nunca conhecera uma mãe. Ao ouvir o seu pai aproximar-se da porta, arrumou os papéis rapidamente na gaveta, quase amachucando-os, e retirou aquele que precisava. “O que estavas a fazer?” perguntou ele, com o seu tom desconfiado natural. “Já estava de saída. Era só isto.”, mostrando o documento. Helena não confrontou o seu pai com a verdade, apesar de ter sentido uma enorme vontade de o fazer. Nesse mesmo dia, à tardinha, por coincidência talvez, Helena deparou com o seu pai, sentado no sofá, vendo atentamente fotografias dela desde bebé até à actualidade, folheando as páginas cuidadosamente, com um brilhozinho nos olhos raro de ser ver. Mas ele não a viu, Helena abandonou rapidamente a sala e deslocou-se para o seu quarto. Ficou a olhar para as paredes brancas, depois para a janela, aproximando-se do parapeito e colocando os braços em cima, debruçando-se a olhar para baixo. Sentiu um aperto no coração. No entanto, esta situação não foi a pior. Alguns dias depois, de manhã, Helena acordou e estava completamente sozinha. Percorreu a casa toda, com a esperança de encontrar alguém, mas foi vão. Apenas encontrou um bilhete, que dizia assim:

“Querida Helena, tenho tanta coisa para te dizer, para te explicar, mas é tão complicado… Não sou capaz. Deve ser um cobarde. Sei que, quando estiveres a ler isto, já te apercebeste da dura realidade. Fui-me embora. Porquê? Porque cometi muitos erros, graves. Só me resta pedir-te desculpa, apesar de não ser o suficiente.

Adeus, minha filha.”

 

 

- É impressionante como te aconteceu tudo isso num espaço de tempo tão curto… – Disse finalmente o rapaz, após um embaraçoso momento de silêncio quando Helena terminou de contar.

- Nem eu acredito… Ah, é verdade – Ela fez um pequeno sorriso, recordando-se de algo – Tu disseste que me contavas também a tua história, se te contasse a minha.

- Não te esqueceste. Está bem, cumpro sempre o que prometo. Mas, agora que a vou contar, parece irónico… Eu fugi de casa.

- Tu o quê?!

- Sim, vou-te explicar: Desde que a minha mãe morreu, há dez anos, o meu pai não teve mais ninguém, até agora. Há quase cinco meses conheceu uma mulher, bonita e aparentemente simpática, mas quando se mudou para nossa casa, mudou o seu comportamento completamente, pelo menos quando estava sozinha comigo e com o meu irmão mais velho. Primeiro, começou por mandar “bocas”, de que se acontecesse algo ao nosso pai ela iria certificar-se de ficar com tudo, nem que tivesse de pedir uns favorezinhos… Depois, chegou ao ponto de rasgar a própria roupa e partir objectos só para comprar novos. E por fim, a algumas semanas atrás, o meu irmão teve um acidente de mota. Ficou em coma. Sei que foi ela que o fez porque, nesse dia, enquanto estávamos no hospital para visitá-lo, ela sussurrou-me ao ouvido, assustadoramente gentil, “tu és o próximo”. Após isso, tive várias discussões com o meu pai por causa dela, contei-lhe o que se passava, mas ele não acreditou, e disse para me dar bem com ela, porque agora fazia parte da família. Ela ia assistindo a cada discussão como se fosse a primeira, atentamente, com uma grande satisfação no olhar e de triunfo. Assim, uma noite, por já estar farto de tudo, peguei nas minhas coisas e fugi. Neste momento estou bem longe…

- Desculpa, mas não consigo compreender. Apesar de tudo, é o teu pai! Podias tentar fazer um esforço, e não tens provas que tenha sido mesmo ela… Pode ter dito aquilo só para te assustar.

- Tu dizes isso porque não tens ninguém e infelizmente não o escolheste. Mas eu escolhi! Acredita que preferia mil vezes não ter família.

- Não sabes mesmo o que dizes… É sempre bom ter alguém.

- Mesmo que esse alguém nos queira matar?

- Tenho a certeza que o teu pai não o permitiria.

. Sim, sim. O que é que tu sabes da minha vida?

- E o que é que tu sabes da minha?

            Silêncio.

- Foste tu que me deste um encontrão no outro dia? – Helena quebrou o silêncio.

- Ah, sim. Eu vinha a correr, a fugir de um homenzito.

- Porquê?

- Porque tive de roubar comida, ou achas que vivo do ar? E tu também mais cedo ou mais tarde irás fazê-lo.

- Pois… Mas gostava que houvesse outra forma.

- Só se montássemos um negócio – Com um tom de brincadeira.

            Helena mirou-o com um olhar de expectativa, de esperança e de quem acabara de ter uma ideia brilhante.

- Não estás mesmo a pensar… Não, nem penses.

- Oh, vá lá!

- Temos dois problemas: O primeiro é que não sabemos de quê e o segundo é o mesmo de que falei à pouco… Não há dinheiro.

- O primeiro resolvo já! Hum…

- Então?

- Espera, estou a pensar!

- Não vais chegar a nenhuma conclusão…

- És sempre assim tão negativo?

- Dadas as circunstâncias… Nem sei como tu não estás.

            Helena ficou subitamente triste, como se por momentos estivesse abstraída da realidade e de repente despertasse para a solidão.

- Não disse isso para ficares triste, desculpa. Também estou nervoso com isto tudo e sinceramente não sei o que fazer. Calhava bem uma ajudinha…

- Tive uma ideia melhor – Disse alto, levantando-se de repente – Não temos de montar um negócio, podemos arranjar emprego numa loja!

- Sim, essa já é uma ideia mais realista.

            Os dois riram.

- Hei, esta parece fixe – Disse Helena.

- Disseste isso das últimas… – O rapaz contou pelos dedos – Sete lojas por que passámos.

- Não foi nada!

- Como queiras – Fez um gesto com a mão – Temos obtido a mesma resposta em todas, somos demasiado novos e acham que não iríamos conseguir.

- Além disso, não querem problemas com as autoridades… Se nos vissem a trabalhar eles iriam ter problemas. Ai… – Suspirou, parando à frente de uma loja, e o rapaz continuou a caminhar sem dar pela falta dela.

            “Aaaaah!” de repente ouviu-se um grito, fino, aflitivo.

- O que foi?! – O rapaz deu meia volta a correr – Estás bem?

- Olha ali – Apontou para o interior da loja, no chão – Aquela velhota está desmaiada.

- Oh não… Só me faltava mais isto. Vamos mas é embora.

- Não! Temos de a ajudar.

- Já viste se aparece aqui alguém? Ainda pensam que fomos nós que lhe fizemos mal.

- Não pensam nada. Vá, ajuda-me aqui. Eu agarro-a deste lado e tu deste, ok?

- Continuo a achar que não é boa ideia.

            Sendo assim, ajudaram a senhora, segurando-a pelos braços. Levaram-na para o interior da loja. Ao entrarem mais a fundo, aperceberam-se que ligava à casa dela. À medida que passavam, Helena ia espreitando para as divisões. Encontraram então o que seria a sala. Colocaram-na no sofá, de pernas e braços estendidos ao longo do corpo.

- E agora…? – Perguntou o rapaz, baixinho, parecendo ainda um pouco atrapalhado – Talvez devêssemos ficar um pouco, até ela acordar, para não estar sozinha, e ver se necessita de alguma coisa.

- Afinal preocupas-te – Respondeu Helena, com um tom de brincadeira, dando-lhe uma pancadinha no braço.

- Oh… Já pensaste que podemos receber uma recompensa? – Piscou-lhe o olho.

            Helena ficou admirada a olhar para ele, não se tinha lembrado disso, e também compreendeu que o rapaz estava a brincar, só para não admitir que estava tão preocupado como ela.

            Ao fim de meia hora, já estavam fartos de esperar. Tanto se sentavam, como depois se punham em pé ou caminhavam pela sala. No meio desta impaciência, a senhora despertou.

- Ai a minha cabeça… Ah! – Assustou-se, ao ver que não estava sozinha, com dois desconhecidos em sua casa – Quem são vocês?

            “Nós…” começaram os dois em coro.

- Deixa-me ser eu a falar – Afirmou o rapaz, decidido.

- Está bem, está bem…

- Nós encontrámo-la desmaiada à porta da loja, trouxemo-la para dentro e…

- E estivemos este tempo todo à espera que acordasse! – Cortou Helena.

- Eu disse-te que era melhor deixares-me falar! – Rosnou o rapaz, ao seu ouvido, continuando a olhar para a senhora de relance, com ar simpático.

- Não combinámos nada disso! Porque tens de ser sempre tu a decidir tudo, ham? – Respondeu-lhe com o mesmo tom.

- Eu é que decido tudo?! Tu é que me obrigaste a trazê-la! – Elevou o tom.

- Pronto, minha senhora – Virou-se Helena para ela, com um enorme sorriso – Está tudo bem consigo, dói-lhe alguma coisa?

- Estou bem – A senhora riu-se, ao ver a discussão deles.

- Então vamos embora – Concluiu o rapaz.

            Porém, quando os dois caminhavam para a porta de saída a senhora chamou-os.

- Meninos, esperem – Sentou-se no sofá com esforço – Eu estava sozinha, de repente senti-me maldisposta, nem sei bem como foi, se não fossem vocês ainda estava para ali…

- Se não tivéssemos sido nós tinha sido outra pessoa qualquer… – Disse o rapaz.

- Insensível – Atirou Helena para o ar, olhando para o tecto, abanando a cabeça.

- Sim, é verdade – A senhora riu-se de novo – Mas eu acredito no destino, e se foram vocês que passaram naquele momento é porque já estava destinado.

            Helena contemplou-a maravilhada por aquelas palavras, já o rapaz, não pareceu convencer-se muito.

- O que posso fazer para vos agradecer? – Perguntou a senhora com entusiasmo.

- Bem… – Começou Helena timidamente – Sabe de alguém que precise de dois lindos empregados como nós?

            O rapaz riu-se, dizendo baixo, “depois eu é que sou interesseiro”.

- Não conheço ninguém… – Os rostos esmoreceram – Mas eu posso ajudar-vos, podem ficar aqui, a trabalhar na minha lojinha.

            Helena abraçou a velhinha com muita força e ternura, ficando o rapaz a observar, imóvel, de longe.

            Seguiram-se os dias de trabalho, divertimento e companhia. Para eles era muito melhor estar ali, a passar o tempo, do que ver as paredes tristes de uma casa abandonada ou uma floresta fria e deserta. A Dona Matilde, a velhinha, era uma senhora muito simpática, estava sempre a perguntar-lhes se ia tudo bem. Ela não sabia que eles estavam sozinhos, mas talvez desconfiasse, porque de vez em quando, se sobrava comer da mercearia, ela oferecia-lhes.

            Depressa se habituaram à rotina, aos clientes do costume, às histórias “do meu tempo…” da Dona Matilde, à gata persa chamada Floco de Neve, e sobretudo à companhia que faziam uns aos outros. Notava-se que o rapaz estava mais aberto, apesar de continuar a ser desconfiado.

- Peço desculpa pelo atraso! – Anunciou Helena, entrando de rompante pela loja, cansada – Ainda por cima caí ao vir para cá… Vê, Dona Matilde? – Mostrou o seu joelho ferido.

- Vamos já tratar disso, minha querida.

            Foram as duas para o interior da casa, ficando o rapaz a espreitar, com curiosidade, sem pronunciar qualquer palavra.

            Voltaram.

- Chegueeeei – Disse Helena, sorrindo para o rapaz.

- Dói-te? – Perguntou, fazendo um gesto com o queixo para o joelho.

- Já não! A Dona Matilde tratou de mim.

- Está bem – Continuou a arrumar o que estava a fazer.

            Helena sorriu. Começou a arrumar com ele. Ao dar um passo, virando-se para trás, para agarrar uma coisa, esbarrou contra o rapaz. Ele segurou-a nos braços, a distância entre os seus corpos ficou cerca de um centímetro, os olhos cruzaram-se, os lábios quase se tocaram. Ficaram hipnotizados, a olhar um para o outro. O mundo não existia, os problemas não existiam. Só eles dois. De repente Helena despertou.

- Desculpa… Que desastrada! – Afastou-se, olhando para o chão – Vou pegar nisto – Agarrou então o objecto que tinha deixado cair, com o embate.

            Não respondeu. O rapaz continuou a observá-la com o mesmo encanto de quando os seus olhares se tinham cruzado.

            Passados dois dias, Helena anunciou uma novidade.

- Dona Matilde vi na televisão que na próxima terça-feira à noite vai haver uma chuva de meteoros! Podíamos ir juntos ver!

- Seria maravilhoso, querida! – Dona Matilde sorriu com o entusiasmo de Helena.

            Porém, no decorrer dessa semana, Dona Matilde sentia-se muito fraca, doente. Aproximava-se o dia tão desejado por Helena, o da chuva de meteoros. “Nesse dia ficamos os três a ver pela janela da casa da Dona Matilde, está bem?” Era o combinado. Nesse dia, de manhã, quando os dois chegaram para o trabalho, encontraram Dona Matilde deitada na cama.

- Que se passa? – Perguntou Helena alarmada, sentando-se de joelhos junto à cama.

- Estou muito doente, minha querida – A voz abafada.

- Mas vai ficar boa!

- Ouve, Oiçam-me os dois – Olhou para o rapaz – Provavelmente não estarei em condições para ver a chuva de meteoros logo à noite convosco. Se… Se me acontecer alguma coisa, quero que saibam que gosto muito de vocês!

- Oh Dona Matilde, que está a dizer?! – Os olhos de Helena ficaram cheios de lágrimas – Vai ver a chuva de meteoros connosco, então!

- Acalma-te lá, não estejas a enervar a Dona Matilde – O rapaz puxou-a, levantando-a de junto da cama.

            O resto do dia foi uma tortura. Helena e o rapaz estiveram na loja, como é habitual, mas sempre espreitando de esgueira para a porta ao lado, onde se encontrava Dona Matilde. Nesse dia, o ambiente na loja ficou marcado por um ar pesado, devastador, de mau presságio para todos aqueles que ali entravam.

            Chegou a noite. Dona Matilde levantou-se a custo da cama, apoiada pelos dois jovens. Puseram-se os três à janela, esperando pela chuva de meteoros.

- Está a começar! – Helena apontou para o céu.

- Que bonito… – Murmurou o rapaz.

            Dona Matilde contemplava o céu, sem nada dizer, apenas mergulhada na sua imensidão. Quando terminou a chuva, regressou à cama.

- Meninos, estou mesmo muito mal, por isso, quando eu desaparecer, não fiquem tristes. Lembrem-se: Olhem para o céu, para as estrelas, qualquer uma, e tentem encontrar-me. Eu estarei lá.

- Mas, mas… – Helena soluçava.

- Afinal, conseguimos vê-la, não foi Lena? Cumpri a minha promessa e vi a chuva de meteoros convosco.

            Dito isto, adormeceu. Adormeceu e não voltou a acordar. Um sono eterno, tranquilo.

            A partir desse dia, Helena e o rapaz tomaram conta da loja. Sabiam que Dona Matilde iria gostar de saber que estava cuidada e limpa como ela costumava fazer. Helena chorava, chorava muito sempre que entrava no quarto de Dona Matilde. O rapaz sabia-o, pelos seus olhos vermelhos, mas nunca perguntava nada. Acabaram por se mudar para lá, os dois, ficando Helena com o quarto e o rapaz com a sala.

            Um dia, quando já se tinha passado mais ou menos quatro meses desde a morte de Dona Matilde, o rapaz chegou à loja abatido.

- Que tens?

- O meu irmão apareceu cá, veio à minha procura e falámos.

- Ah… Então ele já acordou do coma!

- Sim, e saiu de casa também.

- Estou a ver…

- E quer que eu vá viver com ele… Para longe daqui.

- Ah…

- Vou ter de me ir embora.

- Vou ficar sozinha.

- Desculpa… E é já amanhã.

- Amanhã?! – Helena começou a chorar.

- Não me faças isto… Também vou ter saudades tuas. Esta é a última vez que nos vemos… Sabes, gosto muito de ti.

- Eu também.

            O rapaz começou a aproximar o seu rosto ao dela. Helena, ao pensar que ele lhe ia dar um beijo, fechou os olhos com muita força. O rapaz ficou a olhar para ela, sereno, dando-lhe um beijo na face. Helena abriu os olhos.

- Toma, para te lembrares de mim – Estendeu-lhe a mão.

- Uma túlipa?

- Sim. A primeira vez que nos vimos, na floresta, eu estava sentado junto a túlipas, e aliás, é a minha flor favorita.

- Não me vou esquecer.

            Foi a última vez que se viram. Helena ficou com a loja, casou e teve uma filha, e esta por sua vez uma neta.

- Avó, avó, que estás a fazer? – Perguntou Susana.

- Coisas antigas, filha… Olha, era isto – Mostrou-lhe um livro aberto, com uma túlipa em cima, murcha, muito murcha.

- Porque guardas essa flor?

- Lembra-me uma pessoa.

- Que giro, conheci há pouco tempo um senhor que me disse exactamente o mesmo. Ele disse que tinha voltado aqui à cidade passados mais de cinquenta anos, vê lá tu! E que ficou muito desiludido quando viu que o lugar onde era a floresta estava agora ocupado por habitações.

            Helena sorriu. O mesmo sorriso jovem, alegre.

- Como é que se chamava essa pessoa, avó?

- Curioso… Nunca lhe cheguei a perguntar o nome.

3 Comentários »

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  1. Aww!
    Anicas, outra história das tuas *-*
    Ja sabes que cada uma que eu leio acho sempre melhor, isso é sinal que andas sempre a melhorar ;)
    Esta está muito intensa, eu acho *_*
    E o fim, ficou brutal! Nem me lembrei que não sabia o nome dele!!
    Está muito linda *-*

  2. oi aninha linda

    como sempre é uma história linda…. complexa como a vida e nem sempre cor de rosa no entanto com esforço e 1 pouco de sorte tudo se resolve e até quem passou por momentos mais terríveis pode encontrar o seu lugar, o seu espaço e a sua felicidade.
    é o meu desejo mais profundo que rapidamente encontres esse lugar, espaço e felicidade….

    BEIJOS desta tua amiga p sempre

    LENA

  3. Lenaaa *.* já tinha tantas saudades destes teus comentários super fofos :P
    Acredita que o meu desejo em relação a ti é igual, não sei como tens estado e estou preocupada…
    Como já reparaste, e tu sabes porquê, as minhas personagens são sempre pessoas instáveis, que querem encontrar o seu lugar, serem felizes, mas têm muitos obstáculos, como eu :) e como tu, amiga.

    Beijos
    Obrigada por teres passado por aqui

    P.S Espero que não te importes de ter dado o teu nome à miúda da história, mas foi o primeiro que me lembrei e soou melhor xD


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