Bolhas de sabão

23/09/2010 ás 11:32 | Na categoria Não classificado | 1 Comentário

Uma torre, acompanhando a majestosa e inabalável estrutura de um castelo, com vários metros de altura, tão forte, tão perfeita. Cada pedra, cuidadosamente unida à sua parceira, parecia indestrutível. Por entre finas ranhuras, encontrava-se musgo e pequenos buracos junto ao chão. A vegetação cobria as paredes do castelo como um manto, e as janelas largas, compridas, estendiam-se por toda a sua dimensão. Um portão, em arco, nas traseiras, dava um ar tipicamente medieval e misterioso. Se estivéssemos fixos a olhar para ele, durante alguns minutos, poderíamos ver e ouvir sons de espadas, cantos líricos e sombras de vestidos longos a atravessar o pátio. Na frente, não existia qualquer portão. E na janela, a do topo, uma menina soprava bolhas de sabão. Os seus cabelos loiros, ondulados, deslizavam em conjunto com a harmonia das bolhas de sabão, sendo arrastadas pelo vento, para bem longe. A menina desejava saber para onde iriam as bolhas, mas nunca o soubera. “Cada uma deve ir para um lugar diferente. Várias cidades, países… Que coisas maravilhosas elas devem visitar! E Eu… Eu fico sempre aqui, neste quarto”, pensava ela, enquanto se virava para trás.

            O quarto era lindo, é certo, extremamente bem decorado. De canto, havia uma poltrona de veludo, onde muitas vezes a menina se sentava. À direita, poderíamos ver uma mesa de madeira cor de pinho, com uma gaveta por baixo; a cadeira, ligeiramente afastada, da mesma cor, fazia de suporte a um grande urso de peluche. Do lado esquerdo, estava a cama, uma caminha pequena para alguém desse mesmo tamanho; perto dela, estava uma mesa-de-cabeceira. De frente, uma estante de tamanho médio, madeira escura, carregava pesados livros, distraidamente colocados. Ao lado da estante, tínhamos uma porta directa para uma modesta casa de banho. E porta de saída? Não, não tinha.

            Todos os dias, a menina recebia tabuleiros com refeições quentes, sem saber nunca de onde vinham. Estes surgiam no parapeito da janela, antes que ela se apercebesse que eles já lá estavam A menina nunca tinha saído do quarto, aliás, nem se recorda de ter entrado. Era um sentimento vazio estar ali. Aquele lugar era-lhe familiar, no entanto, não era a emoção de algo bom, como de quando somos crianças. Era de algo assustador. Lembrava-se de em tempos não estar sozinha, de estar com uma senhora, que lhe tinha ensinado a falar, andar e tantas outras coisas. Mas, de alguns anos para cá, deixara de aparecer. A memória dessa senhora era já muito vaga. Dos poucos objectos que lhe deixara, incluindo os livros e urso de peluche, entregara-lhe também um recipiente para poder fazer bolhas de sabão. Desde essa altura, a menina todos os dias inclinava-se na janela, soprando bolhas de sabão.

            Um dia, porém, decidiu olhar para baixo. A sensação foi de tontura, quase desmaiou. Foi a primeira vez que viu realmente o mundo exterior. Já tinha olhado muitas vezes para o céu, sim, para o horizonte, mas nunca para baixo. Viu o chão, árvores, a estrutura do castelo onde sempre vivera mas nunca tinha visto o seu exterior. Como a ideia de espreitar não lhe tinha passado pela cabeça? Nem ela sabia, mas foi essa a pergunta que perseguiu a sua mente o resto do dia.

            O que poderia encontrar? O que poderia ver? Sentir, tocar? Tantas perguntas lhe pairavam na cabeça, e quanto mais pensava nelas mais a ideia lhe agradava. Mas como poderia descer? Se ao menos existisse uma escada…

            Nessa noite, adormeceu na poltrona. Sonhou com aquilo que imaginava, o que não imaginava, o que nem sequer queria imaginar. Não queria criar ilusões de saídas, isso seria ingenuidade, mas o “e se…” não parava de a atacar. Até que, quando acordou, um ímpeto de recorrer ao recipiente de bolhas de sabão lhe correu o corpo. Não sabia porquê, nem para quê, mas queria usá-lo. Levantou-se, correu rapidamente para a mesa-de-cabeceira e pegou nele. De seguida, caminhou até ao parapeito da janela, desta vez lentamente, tão lentamente que cada passo parecia mais pequeno que o outro, como se soubesse aproximar-se de perigo, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de andar. Chegou então, finalmente, à janela. Olhou para baixo, o seu maior receio. Bem, dessa vez, não se sentiu tão tonta, mas continuava com medo. O medo pode apoderar-nos. De repente, virou a cabeça para o lado, não queria continuar a olhar. Então, teve uma ideia, uma ideia louca talvez, mas situações desesperadas requerem medidas desesperadas, não é?

            A menina começou por soprar as bolhas de sabão, como sempre fazia, mas desta vez soprava-as rápido, seguidas umas às outras, como se tivesse a intenção de juntá-las. As bolhas começaram por formar uma onda, depois, criaram uma forma mais definida: Formaram uma escada. Uma escada em caracol, com dois sentidos: Um para cima e outro para baixo. “Para cima?” Interrogou-se a menina. A medo, colocou um pé no parapeito, de seguida, apoiando-se com a mão direita na parede, colocou o outro. Sentiu-se quase a tombar, mas felizmente, conseguiu manter o equilíbrio. Ponderou se deveria saltar ou não para o primeiro degrau da escada de bolhas de sabão. E se esta rebentasse? Era um risco. Então, após reflectir, saltou a pés juntos.

            A escada, por incrível que pareça, continuou intacta. As bolhas resplandeciam à luz do sol cheias de cor, vida, como um arco-íris; eram tão frágeis mas simultaneamente tão alegres, brilhantes. A menina olhava para elas, à medida que subia os primeiros degraus, como se estivesse a contemplar diamantes. Então, a uma certa altura, parou.

            “Agora não sei que caminho escolher”. Olhou para os dois lados. “A menos se…”. Caminhou delicadamente e, no ponto em que as duas escadas se separavam, cruzou-as. Foi complicado fazê-lo sozinha, as bolhas tinham tendência a escapar, mas acabou por conseguir.

            “Primeiro vou até lá abaixo”, decidiu, “Poderei voltar e visitar o outro caminho”. Após descer os vários degraus, chegou finalmente a terra firme. Era um mundo novo. Olhou à volta e viu coisas que apenas conhecia dos livros, como as árvores. Até que se deparou com um castelo enorme, olhou para cima, esticando todo o seu pescoço, mas não lhe conseguia ver o fim. Era tudo tão novo mas tão familiar.

            Caminhou mais um pouco e encontrou o pátio: As traseiras do castelo. “Que jardim lindo!”, exclamou em voz alta. Entrou pela porta em arco para espreitar melhor. Mas, para sua grande desilusão, não estava ali ninguém. Quer dizer, ela não tinha a ideia fixa de encontrar alguém, no entanto, no seu subconsciente tinha-a, só se apercebendo disso quando se sentiu triste. Ao virar as costas, deu com uma curva. Cruzou-a, encontrando um banco de pedra comprido esculpido no encosto. Debruçou-se para tentar ler o que dizia. “Uma mente aberta tem a capacidade de escutar e ajudar, as demais, têm a capacidade de ouvir e ordenar”. Frase interessante, pensou a menina. Ao regressar ao pátio, teve a ligeira sensação de ser observada. Virou-se, pensando ver uma sombra. Depois, virou-se de novo, pensando ter ouvido uma música. “Que estranho, é melhor ir-me embora daqui”.

            Ao encontrar-se no ponto de partida, junto ao castelo, teve a ideia de continuar a andar, mas achou que não devia. Tinha imensa curiosidade, é certo, mas o medo era maior. Assim, subiu a escada de bolhas, preparando-se para visitar o outro caminho, mas sempre com o “e se…” na cabeça.

            O outro caminho era diferente. Não era superior, nada disso, mas sim diferente. Essa é a palavra certa. A menina encontrou nuvens, o sol, a lua, estrelas e o arco-íris. Tudo tão maravilhoso, calmo, tranquilo, sem se ouvir um mínimo barulho. A menina experimentou subir a uma nuvem, e a sensação foi divertida; era fofa, esponjosa e poderíamos saltar sob ela como numa cama. Tentou tocar as estrelas, mas estas fugiam quando se aproximava, como se estivessem a brincar, rindo-se, aproximando-se e afastando-se dela, circundando-a. Tentou também tocar o sol, mas a sua mão encolheu-se ao sentir o calor intenso; era impossível aproximar-se. Em seguida, aproximou-se da lua; esta possuía um ar de sabedoria mas, quando a menina se aproximou, envolveu-a nos braços como uma mãe faria, com todo o carinho. Estar ali, naqueles momentos, começou a dar um sono hipnotizante à menina, o que a obrigou a retirar-se. Por último, deparou-se com o arco-íris, o mesmo arco-íris que vira em ilustrações de livros, mas este era mil vezes melhor, mil vezes verdadeiro, mil vezes único, palpável. Correu em direcção a ele, com o intuito de tocar em cada cor. Porém, ao tocá-lo, foi como se tivesse derramado tinta de uma tela ainda fresca. Todas as cores começaram a escorrer para as bolhas de sabão, pintando-as como o arco-íris.

            “O que está a acontecer?!”, a menina alarmou-se, mas, depois, acalmou-se ao presenciar aquela linda escada de arco-íris. E, ela própria, ficou com todo o seu corpo coberto por aquelas cores. Tornou-se num espírito livre, cruzando sempre que quisesse o Céu e a Terra. Finalmente sentia-se parte de algo, em casa.

            Sentirmo-nos em casa é tão importante. E não digo uma casa qualquer, onde vivemos, mas sim onde pertencemos. É fácil encontrar muitos sítios de que gostemos, mas aquele onde pertencemos, só o encontramos uma vez na vida e, por mais que tentemos fugir dele ou que as circunstâncias da vida o obriguem, voltaremos sempre a reencontrar, ou encontrar pela primeira vez, o caminho para casa.

1 Comentário »

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  1. * Liberta o lado infantil *
    ISTO ESTÁ BRUTAAAL CARAMBA!!!
    * nem lhe passa pela cabeça agir como uma pessoa normal *
    está taaao linda, ai meu deus, adoro, adoro, e o fim tao intenso, ai meu deus. So queria saber do passado da menina! E sabes que isso é algo bom! Porque a pessoa fica tao embrenhada na historia que depois apetece ler mais! Mas é como um poema que tenho no meu livro de ingles que, resumindo: quando uma borboleta pousa numa flor, nos ficamos a admirar a sua beleza, a sua complexidade, de onde ela vem? para onde vai? e depois ela apenas voa para longe, deixando aquele gostinho a maravilhoso. Gostavamos que aquele momento durasse mais, mas já somos sortudos só pelo facto de a termos visto! Ou seja, os teus contos podiam ser maiores, mas já é optimo experimentar este bocadinho de ti e faz parte de ti deixares este mistério todo no ar, confundires-nos nas entre linhas, deixares dúvidas e respondendo a algo a que nao estamos á espera! E cada historia tua tem um bocado da tua colorida imaginaçao, é tao linda! É lá bolhas de sabao, é lá arco-iris, é lá mil cores e o sol, jardins, a lua, anjos! Enfim, o teu interior é algo “fofástico” *-* lembra-me um peluche que tenho aqui de uma abelha toda cor de rosa que é super linda, tenho de tirar foto para te mostrar *-*
    E bem, obrigada por partilhares estas coisas com o mundo, o talento nao pode ser desprezado ou guardado a sete chaves, tens de partilhar com o mundo aquilo que consegues fazer ;)


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