O Segredo da Imaginação
14/05/2011 ás 10:33 | Na categoria Não classificado | 1 ComentárioSusy Cleveland acabava de chegar a Water Jewel após uma longa viagem de comboio. Desceu na estação, pousou a sua volumosa e pesada mala no chão, e olhou em volta. Não havia ninguém por perto, somente ela. Podia ouvir o vento soprar de mansinho, vindo dos corredores escuros e antigos. Retirou do bolso um bilhete dobrado em quatro, desdobrou-o, e releu a carta que recebera a semana passada:
“Olá Susy. Como estás? A última vez que nos vimos já foi há algum tempo, lembras-te? Ajudaste-me a mim e à vila inteira a resolver o mistério da fonte. Pois bem, tenho outro enigma para ti: O conde Lawrence foi-se embora da vila, por motivo desconhecido, sem avisar, mas deixou uma mensagem em sua casa, na biblioteca, em que fala sobre a ilusão e imaginação. E, mais importante, quem decifrar o enigma encontra um tesouro escondido na vila! Eu sei o que estás a pensar, este sítio tem imensos segredos por desvendar e parece que cada vez existem mais. Contudo, sei que não és capaz de recusar um desafio como este e muito menos controlar a tua curiosidade apurada. És a única que o pode decifrar. Os habitantes de Water Jewel contam contigo!
Tio Greg.
Susy já era bastante conhecida por aqueles lados pela sua capacidade de raciocínio e dedução. O seu tio admirava-a imenso, tinha orgulho nela, pois não lhe restava mais ninguém, vivia sozinho. Os pais de Susy viajavam permanentemente por causa dos seus empregos, mas nem a
própria filha sabia ao certo o que faziam. Greg insistia, de cada vez que a sobrinha o visitava, de gracejar “Lá andam eles a espiar e prender criminosos
por esse mundo fora! Onde estão desta vez?” e de seguida dava uma gargalhada. Estava convencido de que eram espiões. Susy adorava-o, e por essa razão
prontificou-se logo a partir. Voltou a guardar a carta no bolso e preparava-se para sair da estação, quando de repente sentiu uma tontura e desmaiou.
Ao acordar, a visão estava turva, o que a fez semicerrar os olhos instintivamente e voltar a abri-los o máximo que podia com o objectivo de ver com maior nitidez. Aos poucos, as imagens começaram a criar uma forma definida. A primeira coisa de que Susy se apercebeu foi de que estava deitada num sofá, mirando-o confusa, por todo o seu comprimento. Depois, levantou a cabeça para olhar em frente e viu uma lareira. A esforço, apoiando as mãos no sofá e fazendo pressão nos braços, conseguiu suportar o seu corpo e levantar-se. Concluiu que estava na sala de estar de alguém, ou seja, numa casa, e quase podia jurar que era a da…
Nesse preciso momento ouviu a porta principal destrancar-se.
- Susy, já acordaste! Estás bem, não será melhor sentares-te? – Kate correu para junto de Susy.
- Não vais fechar a porta? – Susy admirou-se.
- Uh… Não, não é preciso. – Kate olhou por segundos para a porta mas voltou a fixar-se em Susy.
Kate era a melhor amiga de Susy na vila. Já se conheciam há muito tempo, desde crianças, e passaram por muitas aventuras juntas. Sempre que Susy tinha um problema ou precisava de ajuda para algo mais delicado, podia sempre contar com o apoio de Kate. Kate era muito simpática, prestável e extremamente perfeccionista em tudo o que fazia.
- Não me lembro do que aconteceu. Como cheguei aqui?
- Bem, – Kate caminhou alguns passos para o lado, na direcção oposta a Susy – Todos estávamos a estranhar demorares tanto a aparecer e, por isso, resolvi ir ter contigo à estação. Quando lá cheguei, para minha grande surpresa, encontrei-te estendida no chão, inconsciente. Fui logo chamar o meu irmão para me ajudar a trazer-te e ele veio a correr, obviamente. – Piscou-lhe o olho em sinal de brincadeira, como que falando de algo que só elas sabiam.
O irmão de Kate, Steven, era apaixonado por Susy desde a infância. E, apesar de ele nunca ter admitido ou
feito uma declaração publicamente, todos sabiam, inclusive a própria Susy, que desmentia por se sentir desconfortável com o assunto. Para ela, Steven era como um irmão, e também não queria fazê-lo sentir triste ou atrapalhado, já que ele era a timidez em pessoa.
- Ah, estou a entender. Então e o meu tio, também sabe que estou aqui?
- Sim, ele disse para ires ter com ele quando já te sentisses melhor.
- Hum… – Susy estava pensativa – Está bem.
Após dito isto, saiu de casa de Kate. Contemplou a vila que não observava há quase dois anos. Nada parecia diferente, aliás, nunca mudava nada em Water Jewel: As pequenas casas em fila ordenada, do mesmo tamanho, todas iguais e bem arranjadinhas, com tons de branco e faixas vermelho claro por baixo das janelas da frente; em cima, tinham varandas médias, com pequenos vasos de flores a decorar os cantos. Aparentemente era um local calmo, mas Susy sabia que por detrás de uma pequena vila existiam sempre grandes mistérios.
Caminhou por entre as ruas, passando a padaria e o teatro, avistando ao longe densas árvores e a familiar estátua de um enorme tigre. Sabia, assim, que estava perto da casa de Greg. Bastava virar à próxima esquina. Por fora, parecia uma casa vulgar, modesta, e ninguém adivinhava a quantidade de objectos valiosos guardados no interior. Greg fazia imensas colecções basicamente sobre tudo. Se encontrasse um objecto perdido que o interessasse, guardá-lo-ia de imediato para o juntar aos outros, inventando um cantinho para o colocar. A casa estava a abarrotar de velharias, mas Greg achava sempre que ainda não eram suficientes. “Nunca se tem arte a mais. Ela enche-nos a alma, e se para isso tenho que encher também a minha casa, que
seja!” era o que ele respondia quando Susy o acusava de não ter espaço para se movimentar. A característica principal de Greg era a teimosia.
Todos na vila conheciam Gregory Cleveland, mas poucos sabiam do seu apreço pela arte e momentos repentinos de filosofia acerca da vida. Greg não gostava de mostrar o seu intelecto, e talvez essa fosse uma das muitas razões por ser um homem solitário, apesar de se mostrar extrovertido com a
maioria das pessoas.
- Tio sou eu! – Chamou Susy, batendo à porta.
Demorou alguns instantes até a porta se abrir, mas finalmente apareceu o tio. Um homem baixo, magro, moreno, cabelo e olhos castanho claro, com ar amigável. Notava-se uma certa semelhança com a sobrinha, partilhando as mesmas características. Susy era uma rapariga magra, parecendo uma adolescente, apesar dos seus vinte e dois anos. Morena, tal como o tio, contrastava com os seus olhos cinzentos e cabelo ondulado castanho quase loiro.
- Tinha tantas saudades! – Susy sorriu e lançou os braços na direcção do seu tio para
lhe dar um forte abraço.
Estranhamente, Greg recuou. A sua expressão amigável mudou rapidamente para uma séria, sem saber bem como agir.
- Que se passa? – A sobrinha ficou um bocadinho triste.
- Desculpa, Susan. Estou com gripe e é melhor não te aproximares. Todos na vila estamos assim, deve ser um vírus qualquer que anda por aí. Aconselho-te a não te aproximares muito dos que estão à tua volta ou podes ficar engripada.
- Oh, está bem. – Greg afastou-se para deixar Susy entrar para o interior da casa.
Susy, examinando a casa cuidadosamente, estava pensativa.
- Podes agora explicar-me com mais pormenores sobre o enigma deixado pelo conde?
- Claro que sim. – Greg estava mais nervoso do que o habitual. – Precisamos de ir à mansão dele.
Não demoraram muito a chegar à mansão, era perto. Susy ficou maravilhada por ver tanto brilho numa casa
enorme. “É estimada”, pensou ela. Havia ouro por todo o lado, até as próprias paredes pareciam ser feitas dele.
O tio conduziu-a até à biblioteca, e que vasta que era! Prateleiras cobertas de livros, arrumados por ordem
alfabética, pendiam ao redor. Por onde quer que nos virássemos, só víamos livros com uma grossura considerada. As estantes eram enormes, tanto de largura como de altura, e iam quase até ao tecto. E este tecto não era normal, tinha uma enorme profundidade côncava no centro, decorado com uma pintura de século XVIII. Para alcançar os livros das prateleiras de cima existiam dois escadotes enormes, com rodinhas.
Susy olhava para todas as estantes, fascinada e de boca aberta, contemplando o tecto. Não conseguia deixar de pensar na quantidade de informação que aquela divisão continha, quantas histórias de ficção e realidade preenchiam as finas e gastas páginas. Cada um deles tinha uma sabedoria diferente, única, especial. Ao agarrar num dos livros, da prateleira de baixo, passando levemente a palma da mão pela capa, Susy interrogou-se também quem já teria agarrado naquele mesmo livro, o que sentira, que conhecimentos procurava ou se simplesmente o tenha encontrado por acaso. Quantas pessoas teriam lido as mesmas páginas? Seriam elas idosas, meia-idade, cerca da mesma do que ela ou quem sabe, até mais novas? Como seriam essas pessoas, boas ou más? Em que períodos das suas vidas teriam lido cada um daqueles livros e de que forma eles as ajudaram? E, se tivessem lido outros, o que teria mudado? Susy acreditava que os livros tinham um grande poder sob as pessoas, que eram capazes de as ajudar em maus momentos, esclarecer dúvidas ou servir de companhia. E, mais importante, se tivermos lido um determinado livro num momento marcante, (tenha sido este positivo ou negativo) nunca iremos esquecer.
- Aqui – Greg interrompeu os pensamentos de Susy, apontando para a parede do lado esquerdo.
- Este é o enigma? Bem, nunca tinha visto um escrito numa parede. – Notava-se que anteriormente o enigma não estava descoberto, alguém teve de raspar a tinta da parede.
“A imaginação não se alcança, sente-se. Transforma-se de todas as maneiras possíveis e impossíveis, é de todas as cores, de todas as épocas, pensamentos e sensações. Não pertence a ninguém, pertence ao mundo. Pertence a quem a compreende instintivamente sem precisar de uma definição concreta.
Associada a esta, está também a ilusão. Imaginação e ilusão caminham lado a lado, podendo até estar entrelaçadas. Por vezes, a ilusão intromete-se na imaginação e a última fica confusa, ou noutras a ilusão torna-se a própria imaginação.
Existe um segredo para tal, escondido em Water Jewel, não muito longe daqui. Quem o descobrir, encontrará o maior tesouro desta humanidade e, quem sabe, ajudar outros a encontrar-se consigo próprios através da alma. A alma é um lugar tão profundo, amplo e ilimitado quanto o sítio onde se esconde o segredo da imaginação.”
- Uau. – Exclamou Susy quando terminou de ler, em quase sussurro. – Isto é brilhante.
- Sim, concordo, se ao menos soubesse o que significa exactamente. – Greg suspirou.
- Vai levar algum tempo mas acho que vamos conseguir. – Respondeu Susy confiante, relendo o enigma com um olhar decidido e analisador. – Amanhã irei começar a investigar, já se está a fazer tarde. – Declarou, após espreitar pela janela da biblioteca e ver o pôr-do-sol.
Regressaram a casa do tio e Susy dormiu lá, como era habitual. Tinha um quarto reservado só para si: Mais pequeno do que o seu mas bastante acolhedor, pintado de azul-bebé, com uma cama, uma mesa-de-cabeceira e um armário. Deitada na cama, de barriga para cima, reflectia sobre o seu dia. Algo que fazia premeditadamente para compreender melhor os que a rodeavam ou as mudanças que deveria fazer. Tinha o essencial em casa do tio e gostava de ali estar mesmo que tivesse de dormir no sofá. A satisfação que sentia de cada vez que o visitava fazia com tudo fosse algo especial, até a desarrumação e as suas colecções espalhadas por todo o lado. Porém, desta vez, sem saber bem porquê, Susy não sentia a mesma satisfação de sempre. Algo a incomodava e o seu sexto sentido raramente se enganava.
Perturbada, levantou-se da cama e decidiu andar pela casa, mas sem acordar Greg. Achou que andar lhe faria bem para aclarar as ideias. Ao chegar à cozinha, sentou-se numa cadeira e começou a olhar para os objectos. Nada a cativava por ali para se distrair. Assim, levantou-se da cadeira de seguida e caminhou até à sala. Ali sim, havia coisas capazes de a distanciar dos seus pensamentos.
A sala era um verdadeiro museu, recheada com a maioria dos artefactos encontrados por Gregory Cleveland ao longo dos anos. Era, assim, a maior divisão da casa. Susy adorava remexê-los, surpreendendo-se sempre ao encontrar objectos que ainda não tinha visto. No entanto, era natural, já que eles se encontravam sobrepostos uns aos outros e de vez em quando Greg juntava um novo elemento às suas colecções. Os maiores estavam no chão, por todos os cantos, e os restantes em cima da mesinha, estantes, ou até mesmo nas paredes, como era o caso dos quadros.
No escuro da noite, um brilho vindo de um canto da sala despertou a sua atenção. Aproximou-se e pegou num cisne de cristal que era do tamanho da sua mão. “Que lindo.”, pensou ela, “Uma verdadeira preciosidade.”
Aquele cisne fê-la recordar-se de um lago mesmo em frente a casa de Greg, mas não iria lá naquela noite, precisava de energias para a investigação que se avizinhava, e Susy pressentia que seria bastante mais intensa do que pensava.
No dia seguinte, às oito da manhã, Susy já estava de pé e preparada para a acção. Saiu de casa do tio e dirigiu-se
ao lago que lhe veio à memória na noite anterior. Ainda era cedo para poder fazer perguntas aos habitantes, como tencionava fazer. Quando chegou, vislumbrou o famoso Shiny Lake: Brilhante, como sempre, (daí ter este nome), tão transparente quanto poderia ser e minado de rãs. Contudo, de tempos a tempos, determinadas espécies de cisnes migravam para Water Jewel, e Susy ficava radiante quando os conseguia ver. Infelizmente, esta ainda não era a época deles.
Contornou o lago, vendo o seu reflexo nele, quando de repente, vindo detrás de si, algo caiu em cheio no lago, salpicando Susy pela força do embate. “Uma pessoa… Quem poderá ser?”, pensou Susy, ao aperceber-se de que o que caíra era um indivíduo e estava deitado de costas para ela. Apenas conseguia ver um vulto humano coberto por lama e um cabelo desgrenhado.
O indivíduo levantou-se, tentando limpar-se de modo envergonhado, olhando depois para Susy com ar tímido.
- Oh… Olá, Susy. Eu estava a andar e… caí… quer dizer, tropecei… e depois… – Disse por entre pausas e gaguejos, até que parou de falar por ver que não estava a fazer sentido.
Susy aproximou-se do rosto dele, a um metro de distância, o que o fez corar.
- Stevie és tu! – Afirmou com alegria. – Bem me parecia que estava a reconhecer essa cara!
- Já sentia a tua fal… – Fez uma pausa brusca- Não nos víamos há imenso tempo!
Steven molhou a face no lago e as suas roupas, recompondo-se rapidamente. Steven, ou Stevie, como Susy costumava chamá-lo, era um rapaz de vinte e dois anos bastante bonito, alto e largo de ombros, quase como um segurança, no entanto, era tímido, como já tinha referido, e completamente desastrado. Susy achava o facto de Steven ir contra tudo, tropeçando, uma característica singular dele que o tornava engraçado, ao contrário da maioria da população, que frequentemente se irritava com ele.
Conversaram, Susy explicou-lhe o que a trazia a Water Jewel, e Steven decidiu instantaneamente acompanhá-la na investigação. Começaram por fazer perguntas aos habitantes, um questionário é sempre útil em qualquer pesquisa. Porém, ao que indicava, nunca ninguém tinha ouvido falar do enigma sobre a imaginação e não faziam ideia onde poderia estar escondido o tesouro. Assim, a ajuda não tinha valido de muito. Susy teria de recorrer apenas aos seus conhecimentos e instinto para o decifrar.
Algum tempo depois, Steven avisou Susy de que teria de ir para casa resolver uns assuntos, deixando a jovem novamente sozinha. De seguida Susy dirigiu-se à mansão do conde, para reler o enigma. “Faz sentido para mim, excepto a parte final. Onde poderá estar escondido, a que se refere com «um espaço amplo e ilimitado»?”, pensou Susy. Caminhou pelos corredores da mansão em busca de pistas.
Quanto mais andava, mais perdida se sentia. Os corredores pareciam todos iguais: Longínquos, largos, compridos, decorados com ornamentos de ouro, como seria de prever, e com cinco portas de cada lado. Susy chegou a um ponto em que já não sabia em que porta teria entrado ou qual faltava abrir, e como não tinha encontrado nenhuma pista que a levasse ao mistério, acabou por abandonar a mansão. “Talvez a pista que procuro esteja mais longe.”
Dirigiu-se, então, à praia ao lado da mansão. Uma praia com um areal enorme, o mar límpido e transparente, e rochas cobrindo a encosta. Susy caminhou à beira de água, mirando o rasto de pegadas que ia deixando pelo caminho. Subiu ao topo da encosta e contemplou a vista deslumbrante: O imenso mar à sua frente. Brilhante, calmo, resplandecendo o sol nele, originando as cores do arco-íris. Como se costuma dizer, “uma imagem vale por mil palavras”, não haveria forma de descrever aquela beleza. Susy sentiu uma paz interior, esquecendo os problemas, apenas pensando no que não existia, sonhando acordada. Então, apercebeu-se de algo que teria de confirmar, sem saber como, mas que tinha de ter a certeza se a sua teoria estaria correcta.
Reuniu, assim, todos os habitantes de Water Jewel na mansão. Juntaram-se na biblioteca e Susy começou por dizer:
- Devem estar a interrogar-se acerca do porquê desta reunião. – Olhou em volta – E sei o que estarão a pensar: “Ela chamou-nos aqui porque já descobriu o tesouro?”, não posso garantir-vos, mas creio que sim.
Alguns rostos ficaram sérios, outros empalideceram e muitos esbugalharam os olhos de espanto.
- Desde que aqui cheguei – Susy continuou a sua explicação após uma breve pausa para as pessoas se recomporem – achei que determinados factos não batiam certo. Primeiramente, achei esta frase do enigma curiosa: “A alma é um lugar tão profundo, amplo e ilimitado quanto o sítio onde
se esconde o segredo da imaginação.” Pensem, de repente, qual o local que vos vem à cabeça, que seja ilimitado?
A pergunta ficou a pairar no ar. Todos pensaram mas ninguém chegava a uma conclusão.
- Então, tem que ser aqui dentro da mansão, não é? Se o enigma se encontra aqui, o tesouro também deve estar. – Um homem sexagenário, de bigode branco, quebrou o silêncio.
- Poderia ser, – Replicou Susy. – Mas seria demasiado óbvio. Além disso, logo no início do enigma, explica que pode estar em qualquer parte da vila. O meu primeiro pensamento foi procurar um objecto, algo palpável, mas depressa percebi que estava redondamente enganada. Em nenhuma frase, ou palavra, remete-nos para que o tesouro não seja abstracto ou espiritual.
- Se não é ouro, estamos à procura de quê? Não existe um tesouro, afinal? – Exclamou uma mulher revoltada.
- Tudo a seu tempo. Ainda não acabei de explicar, terá de ser passo a passo para compreenderem o meu raciocínio e dizerem-me se estou correcta ou não. Como estava a explicar, concluí que o tesouro poderia ser outro género de riqueza. Respondam-me: Que valores defendem?
- Família. – Respondeu uma jovem.
- Amizade. – Seguiu-se um menino.
- Muito bem. – Confirmou Susy. – Esses são alguns dos valores importantes para vocês e, creio eu, para a maioria dos humanos. Por esse motivo, são considerados um “tesouro”, um bem precioso, apesar de não serem objectos concretos. Estão a entender onde quero chegar?
A população assentiu com a cabeça afirmativamente.
- E penso que este é o caso do tesouro misterioso em Water Jewel. No entanto, antes de avançar mais com a revelação da minha teoria, gostaria que me respondessem só mais uma questão: Na vossa opinião, qual é a preciosidade da vila?
Alguns disseram as mais variadas coisas, como é normal, mas a grande maioria opinava de igual modo: O mar junto à mansão.
- Concordo. – Susy sorriu satisfatoriamente por eles terem escolhido também o mar.
- Só ainda não compreendi uma coisa, – Interveio um homem.- se realmente o tesouro for o mar, de que forma está relacionado e esconde o segredo da imaginação?
- Acho que consigo esclarecer. – Susy sentiu-se contente por finalmente chegar à parte interessante da sua teoria: A decifração do enigma.- Do meu ponto de vista este enigma tem um carácter filosófico. Venham comigo para entenderem o que quero dizer. – Susy começou a andar em direcção à saída e a população seguiu-a. Ela levou-os até à praia, subindo à encosta onde tinha estado outrora. – Vejam a beleza à vossa frente e contemplem! – Exclamou fechando os olhos e abrindo os braços, como que abraçando o mar.
- É lindo. Como é que nunca me tinha lembrado de subir antes? O mar parece tão diferente visto daqui… – Disse a mulher que anteriormente se revoltara por não haver tesouro.
- Não há nada de diferente. Apenas o está a ver com outros olhos e mais perto de alcançar a plenitude da mente. – Respondeu Susy.
- Como assim?
- Repare. Reparem todos. – Levantou o tom de voz para todos a conseguirem ouvir. – A Terra está ligada com aquilo que podemos facilmente observar. Mas, ao invés, quando subimos um monte, rocha ou voamos num avião, estamos mais perto do inimaginável, do desconhecido ao ser humano. Tal como o céu, o mar é um infinito de possibilidades, de sonhos, e emoções provocadas ao contemplá-lo.
O mar é o segredo da imaginação. Quando olhamos para ele recordamo-nos de muitas coisas ou imaginamos outras. Penso que o enigma pretendia exactamente transmitir-nos isso. Em Water Jewel, o segredo reside neste mar e em todas as partes do mundo a imaginação esconde-se noutros locais, noutros mares e céus. Em todos os países existe mar, céu e natureza. É o que nos une. É o que une todas as imaginações das pessoas que se atrevem a sonhar.
A imaginação não tem segredo algum, basta querer criar um projecto e executá-lo. Contudo, para nos inspirarmos, é necessário recorrer a maravilhas como esta. – Apontou para o mar calmo à sua frente. – E é igualmente importante não esquecer que o mar é o reflexo do céu e vice-versa: São ambos azuis, ilimitados, belos. Constituem um todo e os limites para a imaginação não possuir limites.
Susy terminou a sua explicação e os habitantes permaneceram em silêncio, exactamente da mesma forma pensativa e séria de quando ela tinha começado.
- Faz sentido. – Concordou um homem. – E nós que estávamos cegos de ganância, nem nos
ocorreu essa ideia… – Baixou a cabeça, envergonhado. A seguir todos os outros baixaram também as cabeças.
- Não fiquem assim. Ainda há muito por resolver, sabem disso.- Susy ficou com uma expressão inquisidora
a olhá-los. – Preciso de confirmar uma suspeita. – Avançou para um menino, estendendo a mão para lhe tocar no braço.
- Espera, não! – O menino tentou afastar-se, mas foi tarde demais. Susy “tocou-lhe” e confirmou a sua suspeita. Um holograma. Não lhe conseguia tocar, só passar através dele.
- Eu sabia. – Afirmou. – Soube desde o início que muitos factos, sem ser o enigma, eram estranhos.
- Agora já não me faz diferença que o saibas, já sei o principal: O tesouro. Pena que não é o tipo de tesouro que esperava. – Falou um homem por entre a multidão, tirando um comando do bolso. Carregou num botão e os hologramas desapareceram, ficando só ele e Susy.
- Quem é você?
- Conde Lawrence ao seu dispor. – Fez um gesto de cortesia, tirando o chapéu.
- É o Conde Lawrence?! O proprietário desta mansão?
- Eu mesmo. Provavelmente já deduziste o modo como engendrei o meu plano, no entanto, irei contá-lo: Após descobrir o enigma em minha casa, queria arranjar uma forma de o descodificar, mas eu próprio não conseguia, por isso teria de ser outra pessoa. Lembrei-me, então, do que o teu tio falara sobre ti, de seres capaz de superar qualquer desafio.
Decidi falar com ele e pedir-lhe que te chamasse até cá, mas ele não se mostrou receptivo em ajudar-me pelos meus “motivos gananciosos”. Logo depois a vila inteira ficou a saber o que eu pretendia e viraram-se contra mim, determinados a não me deixarem contactar-te. Não me restou outra hipótese senão prendê-los.
Escrevi aquela carta, passando-me pelo teu tio, com a intenção de te atrair até cá. O resto, depois, foi fácil. Quando chegaste à estação aproximei-me por trás e fiz-te desmaiar ao largar um sonífero. Levei-te para casa da tua amiga Kate, e quando te apercebeste já lá estavas.
Porém, antes de chegares, desenvolvi os tais hologramas para não dares por falta das pessoas. Deu algum trabalho mas tive uma ajudinha do… Stephen? Ah, já sei, do Steven! Conhece-lo, não?
- O quê?! O Steven ajudou-o?! Não pode ser… – Susy esmoreceu.
- Não o fez de livre agrado, é certo, mas era o único que percebia destas tecnologias, por isso deixei-o liberto.
- Está bem, está bem. – Susy recompôs-se. – E agora que já sabe que não existe nenhum “tesouro a sério”, como diz, o que pretende fazer agora?
- Nada. – Respondeu serenamente.
- Mas vai libertar a população, certo? – Susy começou a ficar desconfiada.
- Ainda não tinha pensado nisso, mas agora que perguntas, acho que não.
- Ai não vai? – A rapariga ia-se mostrando progressivamente furiosa. – Porquê?
- Não me apetece. Para dizer a verdade, agrada-me viver sozinho nesta vila. Podes voltar para a tua casinha, já não há mais nada para fazeres aqui.
- Deve estar a gozar comigo…. – Olhou-o com desdém. – Não vou permitir que continue a manter presas aquelas pessoas inocentes.
- E vais fazer o quê, já agora? – Perguntou o conde, sarcasticamente.
Naquele instante, uns braços saídos dos arbustos, por detrás do conde, prendem-no e amarram as mãos.
- Que se passa aqui? – O conde ficou aflito enquanto a rapariga olhava perplexa.
Vindo dos arbustos saiu Steven.
- Stevie! – Exclamou Susy.
- Desculpa ter colaborado com ele mas não tive outra opção. – Afirmou ao apertar as cordas que prendiam Lawrence.
- Deixa lá isso. Temos de nos preocupar agora a libertar o pessoal.
Deixaram o conde na encosta e foram buscar a população.
- Eu sei onde eles estão. – Contou Steven pelo caminho. – No armazém ao lado da fábrica de roupa.
Chegaram rapidamente ao armazém.
- Que fazemos? – Perguntou Susy ao constatar que a porta estava trancada. – Tens a chave?
- Não, apenas o Lawrence a tem. Só existe uma forma… – Mirou a porta pensando, como se já estivesse a fazer o que imaginava. – Afasta-te. – Susy instintivamente afastou-se e Steven arrombou a porta.
Ao entrarem, deram com a população amarrada. Rapidamente desataram-nos. Saíram do armazém e Steven perguntou a Susy:
- Para onde levamos o conde?
- Para a prisão, suponho. – Olhou para o polícia, um dos recém-libertos.
- Foi chocante o que nos aconteceu, para além do mais pela pessoa responsável por isto. Ninguém esperava esta acção do conde. Ele parecia um homem íntegro e era respeitado por todos. – Confessou o polícia.
- Hum… – Murmurou Susy pensativa.
De repente começaram a ouvir gritos vindos do interior do armazém. Pareciam um pedido de socorro.
- Ainda está alguém lá dentro! – Exclamou Steven alarmado. – Vou ver.
O resto das pessoas seguiu-o. O armazém estava aparentemente vazio, mas os gritos persistiam.
- Não compreendo. Talvez seja lá fora. – Steven ficou confuso.
- Não, é aqui. – Respondeu Susy. – Temos de procurar bem.
A jovem começou a apalpar a parede e ia seguindo o som da voz.
- Aqui. – Apontou para um sítio preciso da parede. – É onde se ouve melhor a voz e existe uma saliência na parede. Acho que é uma passagem oculta.
- Então só nos resta deitar a parede abaixo. – Concluiu Bob, um homem da construção civil. – Eu faço-o.
Bob demorou cerca de quinze minutos para ir buscar o material necessário e começou o seu trabalho. Demorou algum tempo, mas a parede foi deitada abaixo. Ao cair, visualizaram um compartimento com um homem lá dentro, encolhido. Depois de se aperceber de que estava seguro, o homem saiu. E para espanto de todos era o Conde Lawrence!
- Existem dois Lawrence?! – Escandalizou-se a população.
- Eu sou o Lawrence. O outro homem é o meu irmão gémeo, o Clarence. Ele veio para cá quando descobriu o enigma em minha casa e arquitectou este plano! – Explicou Lawrence.
- Começa a fazer sentido. – Concordou Susy.
Saíram todos do armazém, regressando à encosta e acompanhando Clarence a ser detido pelo polícia.
- Espere! – Ordenou Clarence. – Antes de ir quero que ela me diga uma coisa! – Apontou para Susy. – Como descobriste os hologramas?
- Não tinha dito que não havia interesse nisso? – Respondeu ironicamente.
- Isso foi antes de saber que o meu plano não ia dar resultado!
- Está bem. A explicação é esta: Os hologramas são fisicamente perfeitos mas intelectualmente não. Notei pequenas falhas no comportamento deles, tais como o meu tio pedir-me para ir ter a casa dele sabendo que estava a recuperar de um desmaio e me chamar Susan. Assim como o comportamento nervoso da Kate, ela é das pessoas mais descontraídas que conheço. Simplesmente não fazia sentido.
- Raios! – Rematou.
O polícia, logo a seguir, levou-o para a esquadra. A população dispersou-se.
- Eu podia ter-te contado mais cedo, quando nos encontrámos no lago, mas não podia. Iria pôr em risco as vidas deles. Mas eu sabia que tu irias acabar por entender toda esta confusão. – Disse Steven a Susy, a sós.
- Esquece. Correu tudo bem. – Respondeu com um sorriso.
- Afinal o segredo da imaginação é isto, ham? – Perguntou, virando-se para o mar. Sabes, eu gostava de te dizer uma coisa, se tivesse coragem, mas não consigo. Talvez um dia.
- Diz lá. O que é? – Perguntou curiosa mas ao mesmo tempo prevendo o que ele estava a pensar.
- Imagina. Está aqui à tua frente o segredo da imaginação. – Piscou-lhe o olho.
Susy riu-se e caminharam os dois de volta à vila.
1 Comentário »
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ANICAAAAAS ! Isto está tão brilhante, mas tão brilhante, mas tão brilhante!
!
Adorei todas as partes da historia o.o
Mas achei fantastico a forma como chegaste à conclusao de que o mar é o segredo da imaginaçao!
Isto porque ele está entre aquilo em que tocamos e vemos e aquilo com que sonhamos e sabemos nunca poder alcançar, ou seja, terra e ceu. Depois, quando olhas para o mar, ves o seu limite mas sabes que ele continua e isso tambem é awesome
E adorei tambem a parte em que me dás completamente a volta!
Passando toda a vila a uma simples ilusao e o conde a ter um gemeo!
Agora este é o meu conto favorito do teu blooog *-* e por aqui tambem vejo uma grande evoluçao na tua escrita (ja sabes que eu adoro ver estes progressos porque acompanho o teu crescimento enquanto autoraaa!)
Acho que usaste bem as fontes que te inspiraram a fazer isto e fizeste um bom mix de tudo aquilo que sabes!
Ameei !
Comentário por Carolina **— 14/05/2011 #